Coluna de Eduardo Matzembacher Frizzo

Em ritmo de festa
24 de Dezembro de 2016 às 08:00

 Passamos 2016 como quem vivencia um constante Plantão da Globo, com aquela vinheta que chama catástrofes zunindo pior que despertador na segunda-feira. Discutimos, brigamos, empunhamos bandeiras, gritamos palavras de ordem e fizemos o diabo – enquanto as manchetes, mais cruéis que um samba do Lupicínio, jogavam querosene em nossos nervos.  

A esperança, seja para qual lado fosse, foi só uma: melhorar a vida de todos. Tanto seu amigo de ultradireita reacionária quanto seu parceiro marxista-leninista ortodoxo queriam isso – uma vida melhor. O que conquistamos, ao final? Nada vezes nada: apenas um mais do mesmo renitente e cheirando à ladeira abaixo, com o povo amargando as penas de tirar da sua lista a possibilidade de uma aposentadoria e os rentistas, integrantes do 1%, cada vez mais gordos.
Mas veja bem: não foi só no quesito jurídico-político-econômico que a gente perdeu. Morreram o David Bowie, o Prince, o Naná Vasconcellos, o Leonard Cohen e o Muhammad Ali. Morreram o Umberto Eco, o Ferreira Gullar, o Alan Rickman, o George Martin, o Hector Babenco, o Geneton Moraes Neto, o Andrzej Wajda, o Paulo Evaristo Arns e até o Cauby Peixoto, o Bud Spencer e a Elke Maravilha. 
Como um ano assim pode dar em coisa boa? Até Trump teve e, nesse entrevero, um pouco da nossa humanidade foi pro beleléu enquanto a gente, raivoso que só, digladiava na ilusão de que a mudança dos atores modificaria o roteiro de uma hora pra outra. Como fomos bobos, não é verdade? Estávamos cheios demais de razão, sem saber por qual razão levantávamos a razão que levantávamos. 
“Espírito de rebanho”, diria Nietzsche. Mas tenho um diagnóstico mais exato: foi só ejaculação precoce mesmo, como bem pontuou o poeta Sérgio Vaz já nas manifestações de 2013. Brasileiro é assim: quando está prestes a fazer algo de fundamento, um novo 7 a 1 surge e tudo degringola.
O brabo foi o seguinte: quase no término desse martírio do calendário, veio da tragédia da Chape. Choramos. Lamentamos. A justa solidariedade aflorou. Mas meia hora depois, lá estávamos discutindo, brigando e empunhando bandeiras cheias de razões desarrazoadas. 
É, meu brother: em 2016, entramos na era da pós-verdade, na qual pouco importa o que de fato acontece ou deixa de acontecer, mas apenas aquilo que dizem sobre o que acontece ou deixa de acontecer e agrada ou não as verdades tão rijas e bobas que carregamos conosco. Vimos muito de tudo, mas esquecemos de perceber que nessa visão há uma parcela grande pra caramba de nós mesmos. Narcisos plenos, achamos feio o que não fosse espelho.
Deu no que deu: nem sete pulinhos de onda e mil oferendas à Iemanjá irão nos salvar do resultado desse jabá gigantesco e grotesco em 2017. A fatura virá sem dó nem piedade – e a gente, que integra os 99%, vai pagar o pato. Repete comigo, portanto: “quac-quac” – mas depois solta uns fogos e bebe umas pra desopilar, porque ninguém é de ferro nesses poucos dias que antecedem o ano novo. 
 
P.S.: Em meados de fevereiro retorno com os textos para o Jornal das Missões. Até lá!

Mestre em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Unijuí. Especialista em Docência para o Ensino Superior e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela CNEC/Iesa Santo Ângelo. Advogado e professor universitário em sede de graduação e pós-graduação no Curso de Direito da Faculdade de Balsas (Unibalsas/MA). Diretor Jurídico da Sociedade Racionalista (www.sociedaderacionalista.org). Editor e responsável pelo blog Não é céu. (www.naoeceu.blogspot.com).

Email: eduardo7frizzo@hotmail.com

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