Coluna de Eduardo Matzembacher Frizzo

Confiança e mercado
15 de Julho de 2017 às 06:00

Confiança
Não confio em nenhum governo e não coloco a minha mão no fogo por nenhum candidato e nenhum partido. Reconheço que existem ações dignas de aplauso aqui e ali – mas, no geral, em relação ao cenário politico, tenho plena consciência de que todo o crente deve ser ateu (isto é: a partir do momento em que você vira porta-estandarte do político X ou do partido Y, sua capacidade crítica fica esmaecida e minorada). Isso não significa (e é importante deixar claro esse ponto) que não tenha simpatia por determinado espectro ideológico: considero-me social-democrata progressista e já falei isso mais de uma vez. Mesmo assim, pensei que não fosse viver para presenciar a existência de um Legislativo tão podre, de um Executivo tão gângster e de um Judiciário tão desmoralizado no meu país. Mas o pior é o seguinte: as coisas sempre foram assim e a única novidade é que recém agora o cadáver começou a feder. Não é à toa que nesse cenário de falta de legitimidade dos três poderes, somado a uma crise econômica e a um esfacelamento do tecido social, surjam sedutoras vozes que oferecem respostas simplórias e demagógicas para problemas extremamente complexos – o que, devemos convir, não passa de uma grande patifaria. Todo mundo que diz que a simples e não planejada redução da abrangência do Estado é a solução, confiando tão-somente na iniciativa privada, por exemplo, ou que fala que o “direito penal máximo” resolverá absolutamente tudo em relação ao problema da violência urbana, simplesmente está querendo vender seu peixe ideológico e mais nada. Os caras que querem um “Estado máximo” e os sujeitos que vivem de utopias ripongas também insistem em não admitir o óbvio: estamos é embretados em uma briga de foice no escuro.

Entendam: o buraco é mais embaixo e absolutamente ninguém possui uma solução mágica para os nossos problemas.
Reconheçamos nossa ignorância e nossa ausência de perspectivas antes de qualquer coisa – pois, a partir daí, talvez (e apenas talvez) surja alguma luz nesse chiqueiro lamacento no qual estamos enfiados até o pescoço.

Mercado
Toda a vez que ouço ou leio a expressão “mercado de trabalho”, imagino um monstro imenso e medonho que se alimenta de vísceras, sangue, suor e sonhos humanos, exigindo, em sua devoção, o sacrifício da dignidade, da humanidade, do senso crítico e, na totalidade das vezes, o depósito de horas/vida em sua honra e veneração. Resumindo: não sei como as pessoas acham “normal” ou “bom” utilizar essa expressão para justificar isso ou aquilo, já que o paralelo com as afamadas “exigências do mercado” só pode ser a imagem de um moedor de carne. Isso não significa, veja bem, que desprezo a necessidade de qualificação ou apuro técnico para as mais diversas profissões: quer dizer, por outro lado, que quando se busca algo unicamente com base na justificativa do “mercado de trabalho”, essa busca, para aquele que busca, está fadada ao estresse, aos vícios, à depressão, ao fundamentalismo, ao autoengano e a todas aquelas doenças que afetam a gente quando a gente esquece do que sente e é e só pensa no que deseja sentir e ser. Claro que acontece de o indivíduo necessitar se render à “dinâmica do mercado” simplesmente para sobreviver. Mas há justiça nesse sistema? Óbvio que não. Por isso, mais importante que fazer ou planejar algo em razão do “mercado de trabalho” ou em virtude das “exigências do mercado”, é fazer e planejar seja lá o que for para sempre, em qualquer hipótese, fazer do mundo um lugar melhor, tanto para a presente quanto para as futuras gerações. Há que se equilibrar, enfim, aspirações individuais com necessidades coletivas para que se construa um senso fraterno nos sentidos moral e ético.

Sem essa percepção, o que resta é tão-somente o vazio, o que explica, em muitos e muitos fronts, a desesperança distópica na qual nos encontramos atualmente: devorada pelo mercado, a civilização devora seu próprio futuro e vive em um hoje pleno de ilusões que, mais hora menos hora, cobrarão o seu preço na pele de todos nós.
 

Mestre em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Unijuí. Especialista em Docência para o Ensino Superior e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela CNEC/Iesa Santo Ângelo. Advogado e professor universitário em sede de graduação e pós-graduação no Curso de Direito da Faculdade de Balsas (Unibalsas/MA). Diretor Jurídico da Sociedade Racionalista (www.sociedaderacionalista.org). Editor e responsável pelo blog Não é céu. (www.naoeceu.blogspot.com).

Email: eduardo7frizzo@hotmail.com

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