Coluna de Eduardo Matzembacher Frizzo

Gente e perigo
12 de Agosto de 2017 às 08:55

Gente
Tem gente que acredita em “Terra plana”. Tem gente que pensa que “aquecimento global” é “conspiração ambientalista patrocinada pela China”. Tem gente que faz campanha “anti-vacinação”. Tem gente que acha que o Lula ou o Bolsonaro são a “salvação do país”. Tem gente que diz “que jamais houve um governo de direita no Brasil”. Tem gente que paga pau pra pastor que “vende água do Rio Jordão” na TV e “fala em línguas quando possuído pelo Espírito Santo”. Tem gente que defende a “família tradicional”. Tem gente que só assiste filme dublado. Tem gente que diz que o Golpe de 64 “não foi golpe, mas revolução”. Tem gente que banca o “desconstruidão” e prega que “funk é bom e respeitável” e gente que nunca passou ou passará da fase do “sertanejo universitário” e já entrou na decadência do “forrónejo”. Tem gente que ainda confia no Jornal Nacional. Tem gente que lê a Veja ou a Carta Capital e julga que tudo o que tá lá é “jornalismo”. Tem gente que me aparece com o papo de que “ensino é recreação e não disciplina”. Tem gente que acha que tá abalando ao dar “bom dia”/“boa tarde”/“boa noite” em grupo de WhatsApp e gente que repassa correntes pra aporrinhar todos os contatos. Tem gente que faz dancinha pra pato inflável pra tirar a Dilma. Tem gente que faz sarau de poesia pra tirar o Temer. Tem gente que fala em “ameaça comunista” e “ditadura gayzista”. Tem gente que acha que todo o empresário é sacana. Tem gente que pensa que aprende por osmose, que diploma é sabedoria, que carteira é autoridade, que grana é respeito e berço é mérito. Tem gente, gente, gente, gente – e tem gente, como eu, que tem cada vez menos paciência com toda essa gente.

Perigo
Costumeiramente, antes de dormir, penso algo mais ou menos assim: “chega de falar de política, direito, economia e outras tralhas! agora só literatura, cinema, música e arte!”. Mas amanhece e lá estou novamente pensando, falando, escrevendo e lendo sobre política, direito, economia e outras tralhas. É complicado. O tempo que vivemos damanda reflexão e urgência – e a reflexão não anda de braços dados com a urgência, porque, se andasse, poderia ser qualquer coisa, menos reflexão. Por outro lado, somente reflexão não adianta, até porque é possível analisar “À Paz Perpétua” do Kant enquanto o mundo desaba lá fora. O que acontece, acho eu, é que o alarme humanístico dispara com força em quem tem o mínimo entendimento da realidade pela qual passamos. Afinal, se o cara, por exemplo, sacou a mensagem do Dark Side of the Moon e do The Wall do Pink Floyd, não tem como ser diferente. Quem manjou Star Wars, isso para ficar somente na cultura pop, quem sabe esteja no mesmo barco. Daí essa literal angústia quanto ao futuro que se desenha nas dobras do presente – a qual faz com que a gente enxergue quase tudo com esse nó górdio na garganta. Porém, você vai na janela e vê um sujeito cruzando na rua com o som do carro tunado no Wesley Safadão – e só o que passa pela sua cabeça é o seguinte: “em que realidade essa gente vive?”. A sensibilidade de fato define as pessoas – e sensibilidade se constrói com o mix de vivências + cultura + arte. Mas em uma época prenhe de preguiça e leseira mental, o mais provável é que surjam ogros em vez de seres humanos que saibam que trazem um cérebro dentro do crânio. Não é à toa que os zumbis estejam na moda em filmes e séries. Por isso, das duas uma: ou o errado sou eu, que ainda acho que a humanidade vale a pena e tenho uma camiseta na qual está escrito “I believe in humans”, ou os certos são aqueles que já notaram que tudo degringolou há décadas e não há mais nada a fazer que não agir como o Cândido de Voltaire – ou seja: cuidar do próprio quintal e, em um complemento digno do século XXI, afundar-se no prazer pelo prazer e mais nada.
Vá saber. De qualquer modo, fico com Hölderlin: “aonde há o perigo, cresce também o que salva” – o que não me impede de rir, com aquele ar de tristeza e deboche, do que vejo por aí.

Mestre em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Unijuí. Especialista em Docência para o Ensino Superior e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela CNEC/Iesa Santo Ângelo. Advogado e professor universitário em sede de graduação e pós-graduação no Curso de Direito da Faculdade de Balsas (Unibalsas/MA). Diretor Jurídico da Sociedade Racionalista (www.sociedaderacionalista.org). Editor e responsável pelo blog Não é céu. (www.naoeceu.blogspot.com).

Email: eduardo7frizzo@hotmail.com

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