Coluna de Eduardo Matzembacher Frizzo

Difícil, contrassenso e PEN
02 de Setembro de 2017 às 08:00

Difícil
Deve ser difícil ser mulher no Brasil. Se cresce profissionalmente de forma rápida, alguém irá falar que deu para o chefe. Se gosta de estudar e é na dela, alguém irá falar que é muito retraída e quieta. Se usa roupas que valorizam seu corpo, alguém irá falar que é vagabunda. Se é de ficar em casa e cuidar do lar, alguém irá falar que deveria ser independente. Se não dá conversa pra todo e qualquer otário que chega nela, alguém irá falar que se acha ou é fazida. Se anda tranquila demais pela rua ou simplesmente está sentada em uma poltrona de ônibus, pode ser vítima de um tarado ou de gracinhas toscas vindas das bocas mais toscas ainda de machões que se acham os caras – e alguém, ainda por cima, irá falar que toda a culpa é dela. Deve ser muito difícil ser mulher em uma realidade onde não basta simplesmente ser mulher, mas na qual, todos os dias, a pessoa corre o risco de ser alvo de julgamentos, discriminações e violências físicas e psicológicas que não fazem parte da vida da maioria dos homens.
“Mulher sexo frágil”? Nem em Marte, meu amigo. Tem que ser é muito forte pra viver tudo isso aí.

Contrassenso
Ser contra a democracia e os direitos humanos tendo formação em um Curso de Direito, equivale a ser contra a álgebra em um Curso de Matemática, ser contra Newton e Einstein em um Curso de Física e ser contra Darwin em um Curso de Biologia.
Enfim: trata-se do cúmulo do contrassenso.

PEN
“Bolsonaro escolhe o PEN para se lançar à presidência em 2018”, diz manchete da Folha de S.Paulo.
Vejamos: 1) PEN = Partido Ecológico Nacional; 2) o art. 2° do estatuto do partido, fala que a pauta básica defendida pela sigla é a “sustentabilidade”; 3) consoante a Wikipedia, o princípio da sustentabilidade demanda aquilo que é ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente diverso; 4) em recente entrevista ao Estadão, Bolsonaro, dizendo-se inspirado em Trump, afirmou: “esses ambientalistas que torçam para eu não virar presidente”; 5) porém, para ingressar na sigla, como informa o portal Último Segundo, Bolsonaro pediu que o nome do partido seja alterado para PAB (Pátria Amada Brasil), o que ainda será avaliado; 6) segundo O Globo, o PEN detém relação com a Assembleia de Deus, embora isso não seja assumido publicamente pelo partido e a única referência à religião no estatuto esteja no art. 3°, no qual diz se mover conforme os princípios da “social-democracia cristã”; 7) a “social-democracia”, ainda com base na Wikipedia, é “uma ideologia política que apoia intervenções econômicas e sociais do Estado para promover justiça social dentro de um sistema capitalista, e uma política envolvendo Estado de Bem-Estar Social, sindicatos e regulação econômica para promover uma distribuição de renda mais igualitária e um compromisso para com a democracia representativa”; 8) já a “democracia cristã”, na esteira do mesmo site, “é um pensamento, ideologia e movimento político que defende uma democracia baseada nos ensinamentos e princípios cristãos, tais como a liberdade, a solidariedade e a justiça”; 9) tudo bem que coerência ideológica não seja o forte da política brasileira, mas não custa perguntar: o que diabos o patético discurso de Bolsonaro tem a ver com todas essas pautas?!

Mestre em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Unijuí. Especialista em Docência para o Ensino Superior e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela CNEC/Iesa Santo Ângelo. Advogado e professor universitário em sede de graduação e pós-graduação no Curso de Direito da Faculdade de Balsas (Unibalsas/MA). Diretor Jurídico da Sociedade Racionalista (www.sociedaderacionalista.org). Editor e responsável pelo blog Não é céu. (www.naoeceu.blogspot.com).

Email: eduardo7frizzo@hotmail.com

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