Coluna de Eduardo Ritter

Sobre aviões e ganância
26 de Março de 2015 às 07:30

Dia desses, estive em Pelotas. Enquanto eu esperava a minha carona na frente da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), tive uma conversa curiosa com um sujeito. Eu havia comprado dois livros do Hemingway, e um deles se chamava “Casado com Paris”. Isso provocou o início da conversa, pois ele veio me perguntar se eu falava francês. Em resumo, a figura mencionada era um homem de aparentemente mais de 45 anos, calvo, barba branca por fazer e um jeito de falar esquisito. Era estudante de matemática da universidade e disse ter sido piloto de avião e ter feito cursos de aviação. Para ele, voar era uma diversão.

Em meio a conversa, contei sobre o meu pânico de aviões. Falei que fico tenso durante o trajeto inteiro de uma viagem pelos ares, a não ser que tome umas boas doses de calmantes. Ele riu e contou que tem pânico de água: piscina, mar, banheira... Isso se justifica, pois ele já se afogou duas vezes. Não demorou para o tema da conversa ser desastres aéreos, ao que ele me revelou com ar conspirador: “tem um tipo de avião que saiu com problema de fábrica, mas isso não é divulgado... e eles mantém esse modelo voando pois os prejuízos para tirá-los de linha seriam enormes”.

Perguntei que modelo era, ao que ele falou, depois de conferir olhando para os dois lados para ter certeza de que ninguém nos ouvia: A-320. Eu repeti umas cinco vezes em voz baixa, mas audível: A-320, A-320, A-320, A-320... Minha ideia era cuidar para não comprar passagens em voos desse modelo... No entanto, naquele momento, essa era uma precaução de alguém paranoico em relação à aviões, pois aquele sujeito poderia realmente ser um entendido de aeronaves com informações privilegiadas ou poderia ser um maluco com jeito de esquizofrênico que transformava informações aleatórias em realidades verdadeiras apenas em seu mundo imaginário...

Os dias se passaram, e nunca mais pensei na conversa que tivemos. Até que na terça-feira, me deparo com a notícia da queda de um avião na Europa. E qual era o modelo da aeronave? A-320. Se alguém me contasse essa história, juro que não acreditaria.

Acredito apenas porque ouvi tudo com meus próprios ouvidos e vi a notícia com meus próprios olhos.Para corroborar com a teoria do sujeito (de que as empresas aéreas mantem esse modelo em nome do dinheiro), há poucos dias foi publicada uma matéria falando sobre a sobrecarga que os pilotos de avião enfrentam, principalmente aqueles que viajam de madrugada. “Eu estou no limite”, disse um deles, em conversa com outro. Tudo para que as empresas não gastem mais – e lucrem mais. Tudo para explorar ao máximo um sujeito para que meia dúzia fique mais rico. Lembro do sujeito falando em Pelotas sobre o avião da France Airlines que caiu anos atrás: “Quando ele estava antes do meio do caminho, ele pediu para voltar e mandaram seguir. O importante para eles é o lucro. A vida de uma, 50, 100 pessoas não vale nada para eles comparado com os milhões de dólares que ganham”.

Raciocínios semelhantes se estendem para diversas outras áreas, pois tivemos acidentes de ônibus trágicos por motivos semelhantes aos do avião que caiu na França. Motoristas de caminhão vivem o mesmo drama: precisam cumprir prazos absurdos em tempos impossíveis e o resultado são as inúmeras tragédias. Tudo em nome do lucro, nada em nome da vida. Até que o filho de um desses bastardos esteja na próxima lista de vítimas. Ou eles mesmos, pois conheço gente tão gananciosa que abre mão até da vida dos filhos em nome de umas notas verdes no rabo.
 

Jornalista, mestre em Comunicação Social, assina coluna que circula nas quintas-feiras.

Email: eduritter@hotmail.com

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