Coluna de Eduardo Ritter

O comunismo do capitalismo
28 de Maio de 2015 às 09:55

Depois de tantos anos e de tantas discussões, polêmicas, guerras, perseguições, brigas de botequim envolvendo capitalismo e comunismos, parece que as pessoas passaram a discutir as duas formas de gerir a sociedade sem lembrar o que cada uma delas realmente significa, na sua origem. Em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram o Manifesto do Partido Comunista, um texto encomendado pelo próprio partido aos dois pensadores, que então tinham menos de 30 anos de idade. Como é de conhecimento público, a ideologia comunista foi motivo de muitas lutas – afinal, o texto de Marx e Engels prevê que o proletariado (a classe trabalhadora operária) assumiria o governo através da queda da burguesia que, obrigatoriamente, dar-se-ia pela violência. Então se tem um primeiro ponto polêmico: o responder violência com violência não seria o que fizeram, por exemplo, os militares que perseguiam os comunistas na América Latina, no contexto da Guerra Fria? Vez desse que vos escreve levar pedradas dos comunistas... No entanto, o que aconteceu foi a perseguição deliberada de qualquer um que fosse considerado comunista, mesmo que não concordasse conscientemente com essa linha de pensamento...

São polêmicas complexas, difíceis de serem discutidas da maneira que merece, por exemplo, em um texto com espaço limitado como uma coluna de jornal. Mas o que me chama a atenção, relendo o Manifesto do Partido Comunista, é que um dos pilares da proposta de Marx e Engels é, justamente, o fim da propriedade privada. Marx até apresenta um argumento que poderia nos fazer pensar hoje, em meados do século XXI: “Horrorizai-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na sociedade existente, a vossa, a propriedade privada já está suprimida para nove décimos da população; ela existe para poucos precisamente pelo fato de não existir nas mãos daqueles nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma forma de propriedade cuja condição necessária de existência é justamente a inexistência de qualquer propriedade para a imensa maioria da sociedade”. Pois bem, eis um forte argumento: para a grande maioria da população o fim da propriedade privada não representaria absolutamente nada, porque a grande maioria simplesmente não tem propriedade privada.

No entanto, mais adiante, o manifesto apresente algumas regras (leis) que seriam implementadas num governo comunista. E uma dessas regras prevê, justamente, o pagamento de taxas (impostos) ao Estado, que seria o responsável pela distribuição de bens, propriedades, serviços, etc. E isso, no entanto, é um dos pilares da sociedade contemporânea, ou seja, a sociedade capitalista. Um exemplo claro: se eu, enquanto cidadão, quiser comprar uma casa e criar uma horta e passar o resto da minha vida sem trabalhar, vivendo apenas da minha própria produção, sem usar dinheiro, serviço, enfim, se eu quiser ficar apenas no meu canto, na minha casa, produzindo juntamente com a minha família o meu próprio meio de sustentação e, assim, nunca mais trabalhar para terceiros, eu posso? A resposta é: não. Pois haverá a cobrança do IPTU e de outros impostos que eu sou obrigado a pagar, exatamente da forma que está previsto no manifesto comunista. Se eu não pagar isso, o Estado PEGA o que, pela lógica capitalista, seria MEU!

Contraditório, não? Bom, eu iria continuar, mas acabou o espaço. Sinteticamente, então, temos que lamentar o fato de que a maioria dos nossos políticos – muitos que estão em partidos que levam nomes como socialista, comunista ou progressista, não sabem o que essas palavras realmente significam – e não discutem essas questões. E a população então? Bom, a população, como diria um dos personagens de Erico Verissimo, nada mais é do que um monstro de muitas cabeças, e sem memória.
 

Fonte: Jornal das Missões

Jornalista, mestre em Comunicação Social, assina coluna que circula nas quintas-feiras.

Email: eduritter@hotmail.com

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