Coluna de Eduardo Ritter

Sobre Facebook e outras drogas
10 de Julho de 2015 às 11:50

Se um ET descesse na Terra e tentasse entender a lógica da legalização ou não das mais diferentes drogas, ficaria completamente perdido. Qual seria, por exemplo, o argumento para a proibição da maconha? Ela dá barato? Ela altera a capacidade reflexiva do sujeito? Ela faz mal? Queima neurônio? Mas e o cigarro? Por que diabos o cigarro, então, não é proibido? E a cocaína? Ela deixa ligadão? Ela faz o sujeito funcionar três dias e três noites como se estivesse ligado na tomada nos 320 volts? Ah, mas ela deixa as pessoas agressivas e faz o sujeito perder a capacidade de concentração. E a bebida alcóolica, não?
Destilados não levam muitos sujeitos a fazerem coisas que não fariam sóbrias, como brigar, xingar e até matar? O etezinho ficaria completamente desorientado tentando entender essas lógicas do ser humano.

No entanto, o nó seria amarrado em seu cérebro quando ele tentasse entender como a droga mais viciante – e talvez uma das mais nocivas, quando usada inadequadamente – é totalmente liberada, inclusive para crianças e adolescentes. Pois é, o Facebook tem um efeito que pode ser muito mais nocivo do que o uso de LSD, maconha, cocaína e outras drogas para o usuário e para as pessoas ao redor dele. Inclusive, poderia ser feita uma pesquisa na área das ciências humanas e sociais tentando apresentar o seguinte quadro comparativo: quantas pessoas brigam com as outras (em família ou entre amigos) como consequência da ingestão de drogas lícitas, de drogas ilícitas e do uso do Facebook? Quantos casais já brigaram, já se separaram ou até se agrediram por postagens, comentários ou conversas com pessoas do sexo oposto? Quantas mães já deixaram os seus filhos em má situação (passando frio ou fome ou sofrendo de falta de atenção) porque elas estavam absolutamente vidradas na timeline? Assim como as drogas lícitas e ilícitas, o Facebook, se não usado com moderação, pode ser absolutamente devastador. Aliás, a minha sugestão é que essa rede social só possa ser usada por pessoas emocionalmente fracassob prescrição médica.

Outros efeitos causados por esse vício: crise de abstinência e a perca do contato com a realidade. Numa dessas, o sujeito chega em casa e conta para a mulher, que está vidrada no celular: “fui promovido”. E ouve como resposta “nossa, a filha da amiga da tia Joaquina que mora lá na Guiana Francesa vai nascer amanhã!”. O cidadão ainda insiste em manter um papo baseado na realidade: “O único problema é que vamos ter que nos mudar para outra cidade, mas eu já estou cuidando de tudo...”. A resposta da mulher é:
“Acredita que o João, amigo de infância da prima Ana, e a Roberta, que namorou com o amigo da amiga do Antônio, vão se separar?”. O cara suspira e por um momento desiste: “Acredito”. Mas ela nem ouve a resposta. Aliás, ela perguntou sem nem querer saber o que o marido tem a dizer. Rolando a timeline para baixo, ela segue:
“Olha só o cachorro que a Andressa ganhou do pai da prima do namorado dela! Não é o máximo? Nossa, como ela tem sorte de ter um namorado que tem uma prima com um pai bom, né?”. Até que finalmente o sujeito explode e, não só manda, como enfia o celular naquele lugar da beldade. Depois, ele fugiu desse planeta maluco com o nosso amigo etezinho.
 

Jornalista, mestre em Comunicação Social, assina coluna que circula nas quintas-feiras.

Email: eduritter@hotmail.com

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