Coluna de Eduardo Ritter

Datas e marcas
23 de Julho de 2015 às 10:10

Geralmente quem me conhece se espanta pela minha capacidade de armazenar datas. Quero dizer, as datas da minha vida. Volta e meia eu me pego pensando: o que eu estava fazendo há um ano? Há dois anos? Há três? Cinco? Dez? Há 20??? E eu mesmo me surpreendo como gravei em minha mente, sistematicamente, o que eu fazia em cada mês de cada ano dessas três décadas de vida. E por que diabos estou escrevendo isso? Ora, simplesmente porque as pessoas têm a tendência de babar ovo para datas, principalmente as redondas. Por exemplo: nessa semana completaram-se dez anos do suicídio do maior escritor-jornalista de todos os tempos: Hunter S Thompson. Para quem não conhece, basta ler “Medo e Delírio em Las Vegas”, “Reino do Medo”, “A grande caçada aos tubarões” ou qualquer outro livro traduzido para o português – apesar de que apenas 5% dos seus textos foram publicados no idioma falado pelos brasucas. Mas enfim, com certeza você vê quase que diariamente reportagens do tipo “10 anos da morte do fulano de tal” ou “empresa X completa 30 anos de atuação”, etc. E agora chego ao epicentro da questão: e você, cara pálida, o que estava fazendo há um, três, cinco, dez anos?

Eu tenho pensado sobre isso quase todos os dias nesse último ano. Simplesmente porque em agosto vai completar um ano que voltei dos Estados Unidos. E foram exatamente doze meses inesquecíveis vividos na terra do Tio Sam. E, há um ano atrás, eu recém havia voltado de San Diego para Nova York de carro, na viagem mais fantástica que já fiz na vida. Obviamente, estou guardando muitas histórias para jogá-las em um livro, provavelmente ficcional, onde eu possa lançar todas as fantasias em uma narrativa sem nenhum compromisso com a verdade...

Aliás, a vida de todos é muito mais espetacular do que qualquer romance ficcional pode almejar. E para você, que duvida da minha capacidade de armazenar fatos passados, aqui vai: há um ano eu estava morando em um apartamento no Harlem, dormindo no sofá (pois foi o que consegui de última hora na minha volta para Nova York) mas me divertindo pacas; há dois anos eu estava encerrando o semestre letivo como professor temporário do curso de jornalismo da UFPEL. Há três anos eu estava feliz da vida dando aula na UFPEL. Há quatro anos eu dava um pé na bunda da empresa onde eu trabalhava em Ijuí para ser professor temporário da UFPEL. Há cinco anos eu estava apavorado porque estava desempregado, com uma dissertação de mestrado para terminar e com a minha mulher (então namorada) grávida de seis meses. Há seis anos, estava acabando o meu seguro desemprego enquanto eu fazia mestrado – e muitas coisas inenarráveis - e morava com a minha irmã na Rua dos Cubanos em Porto Alegre. Há sete anos eu estava trabalhando no Jornal das Missões, indo uma vez por semana para Porto Alegre para ingressar no mestrado da PUCRS. Há oito anos eu estava fazendo estágio no departamento de esportes da Rádio Gaúcha. Há nove anos faltava um mês para eu me formar em Jornalismo. Há dez anos eu estava em choque, tentando terminar a faculdade, fazendo estágio na Assessoria de Comunicação da universidade onde estudava. Há onze anos eu estava trabalhando em uma rádio em Ijuí... Bom, e há 20 anos? Julho de 1995. Eu estava feliz da vida, na oitava série, pronto para ser campeão da América! E ficava nervoso só de pensar que na manhã seguinte eu veria ela... Ah, bons tempos!!!
 

Jornalista, mestre em Comunicação Social, assina coluna que circula nas quintas-feiras.

Email: eduritter@hotmail.com

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