Coluna de Eunísia Kilian

O Urutau e seus lamentos nas margens do rio Ijuizinho
14 de Outubro de 2013 às 09:03

Precisei buscar energias na Mãe Natureza. Após o anoitecer, se fez ouvir o urutau, na sua solidão mais espessa das matas, de onde faz desprender a sua voz cheia de lamentos.

Existem muitas lendas sobre o urutau e em busca de dados, encontrei uma lenda relacionada com a nação guarani. Conta a lenda que Nheambiú, uma bela moça, filha do Tuxaua da nação guarani, se apaixonou profundamente por um bravo guerreiro tupi chamado Cuimbaé, que havia sido feito prisioneiro pelos guarani. Nheambiú pediu aos seus pais que consentissem no seu casamento com Cuimbaé. Porém, esse e os posteriores pedidos foram terminantemente negados, com a alegação de que Cuimbaé era um tupi, ou seja, um inimigo mortal da nação guarani. Não suportando mais o sofrimento, Nheambiú desapareceu da taba, causando um enorme alvoroço. O velho cacique mobilizou então todos os seus guerreiros para que procurassem, por todo o lado, a sua preciosa filha.

Após uma longa busca, a jovem foi encontrada no coração da floresta, paralisada e muda, como uma estátua de pedra. Ao vê-la, o pai sacudiu-a, mas ela não deu nenhum sinal de vida. Então, o seu pai mandou chamar o feiticeiro da tribo, que a examinou dizendo o seguinte ao cacique: – Nheambiú perdeu a fala para sempre; só uma grande dor poderá fazer Nheambiú voltar ao que era. Então começaram por informar a jovem índia de todas as notícias mais tristes possíveis: a morte do seu pai e a de todos os seus amigos. No entanto, nada surtiu efeito. A jovem continuou inabalável e intacta. Então o pajé da tribo aproximou-se e disse: – Cuimbaé acaba de ser morto. Nesse mesmo instante, o corpo da jovem moça estremeceu todo e ela, soltando repetidos lamentos acabando por desaparecer da mata. Todos os que ali se encontravam, cheios de dor, acabaram transformados em árvores secas, enquanto Nheambiú se transformou em um urutau ficando a voar, noite após noite, pelos galhos daquelas árvores amigas, chorando a perda do seu grande amor.

O canto do urutau provoca espanto e piedade aos que possam ouvi-lo e é também fantasmagórico e místico: “Meu filho foi, foi, foi” – interpreta outra lenda. E eu, imitei seu lamento aos sons do universo e ele simplesmente respondeu. Cigarras, vaga-lumes, a lua e a noite presenciaram juntamente com meus familiares ao redor da fogo de chão a bela “Sintonia dos Lamentos.”

A par da voz queixosa e plangente, uma quase invisibilidade confere-lhe o caráter de um ente misterioso. Muitos não o tomam por uma verdadeira ave, mas sim por um ser fantástico, inacessível à mão e aos olhos humanos.

Não sabia ele, o urutau que estava resolvendo uma questão somente minha... a saudade do meu filho suicida que em pó se transformará.

Voltei... fogo, ar, água, vento e outros elementos que constituem o nosso ser humano.

Fonte: Jornal das Missões

Pedagoga, Especializada em História da Filosofia, membro do Conselho de Cultura, Patrimônio Histórico e Arquelógico de Santo Ângelo, integrante do Movimento Pró-Memória e da Academia Santo-angelense de Letras. Quinzenalmente, assina a coluna Memória.

Email: eunisiaineskilian@hotmail.com

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