Coluna de Marcelo Blume

O que fizeram de errado?
19 de Abril de 2017 às 08:46

Sempre que são veiculadas as dificuldades, o fechamento, ou a venda de alguma organização, começam as especulações sobre as causas, o que deu errado, o que não deveria ter sido feito, etc. Em aulas, palestras, debates já fui questionado sobre os motivos que teriam levado esta ou aquela organização entrar em dificuldades. Pela minha experiência, as expeculações, os comentários geralmente não retratam com fidelidade toda a realidade, pois tanto a prosperidade, quanto a sustentabilidade ou a falência decorrem de uma sucessão de fatores combinados.

Assim como a saúde de alguém, ou como a estabilidade de um vôo, as finanças de uma organização entram em colapso depois de uma sucessão de fatores, alguns internos, outros externos e algumas falhas. Poderíamos exemplificar com aquele descuido, que por sua vez encontrou uma falha, que coincidiu com uma fragilidade, um ponto inesperado para o qual não havia planejamento, bem no momento de outra falha, cuja emergência não deu conta ou não alertou.

A Nokia, que já foi a maior fabricante de aparelhos de telefonia do planeta, quando teve anunciada a venda para a Microsoft foi alvo de algumas análises bem interessantes e dignas das preocupações que todas as nossas organizações devem ter. No final do discurso que anunciou o fechamento do negócio, o principal executivo da Nokia concluiu sua participação dizendo “nós não fizemos nada de errado, mas de alguma forma, perdemos”. Um momento de profunda tristeza tomou conta do ambiente e de todos os presentes e em especial os gestores do seu time. Claro que os concorrentes neste caso são muito poderosos, mas a Nokia passou anos entre os gigantes e em poucos anos ficou sem saída, tendo que vender o que restou. Enquanto muitos se perguntam “o que eles fizeram de errado”, considero que o melhor seria analisar o que eles deixaram de fazer.

Esta empresa perdeu em aprendizagem, em inovação e capacidade de se reinventar continuamente e com isso, perderam a oportunidade de se manter como uma das maiores do seu mercado. Não foi perdido apenas a oportunidade de ganhar mais dinheiro, como muitos podem pensar, mas perderam a oportunidade de sobreviver enquanto organização. É um dos muitos exemplos do que temos visto com frequencia ao nosso redor, em empresas de diferentes portes e setores. Mesmo organizações respeitáveis, que não fizeram nada de errado em seu segmento de negócio, sucumbem por não inovarem o suficiente e não se adaptarem na mesma velocidade em que o mundo está mudando.

A pergunta “o que fizeram de errado” sobre aqueles que sucumbiram aqui ou ali, deveria ser entendida como uma boa mensagem para que quem não inova saiba que será retirado da competição, mesmo sem querer. Aqueles que não querem aprender ou fazer coisas novas não estão necessariamente errados, o problema é que quem não atualizar os pensamentos e a mentalidade será eliminado dos seus mercados, mais cedo ou mais tarde. As vantagens ou diferenciais competitivos de ontem serão substituidas pelas tendências de amanhã.

Vivemos um momento em que não é preciso chegar a fazer algo errado, para colocar a organização em dificuldades, basta que os concorrentes peguem as melhores das novas ondas.  Mudar e melhorar a si mesmo necessita autopermissão para uma nova chance, para pensar diferente e para agir de forma inovadora. Ser forçado a mudar em função dos outros é bem mais doloroso, mais dispendioso e nem sempre fácil de superar.

Mudar, desenvolver, inovar não significa que está errado, mas que aquelas soluções foram muito adequadas para uma realidades que não existe mais e agora são necessárias outras soluções. A acomodação com o que já se conquistou gera dificudades para enxergar o que ocorre a volta e por isso, inovar é preciso!

Um abraço e até a semana que vem!

Marcelo Blume é Administrador, Especialista em Marketing e Mestre em Engenharia de Produção. Professor da UNIJUÍ e convidado em diversas IES. Sócio e consultor da Referenda Consultoria. Palestrante, pesquisador e escritor, com artigos e livros publicados.

Email: marcelo.blume@referenda.com.br

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