Coluna de Marcelo Blume

As feiras e o desenvolvimento local
17 de Abril de 2018 às 06:59

Os leitores mais assíduos sabem que sou um entusiasta de ações mais efetivas de desenvolvimento local através do fortalecimento da iniciativa privada e cooperada. Assim, volto as variáveis que influenciam, esclarecem, contribuem ou dificultam a economia local, procurando refletir um pouco sobre as exposições e feiras comunitárias promovidas por nossos municípios.

Décadas atrás apenas os municípios polos de cada microrregião organizavam feiras, que hoje se tornaram estaduais e nacionais, incentivando que outras comunidades se estruturassem para exposições e feiras associadas a eventos locais como rodeios, motocross, jeep/gaiola cross, arrancadão, ciclismo, maratona, traking, festivais de música, dentre outros. Movimentos que mobilizam o município para atrair visitantes, quanto maior o conjunto de atividades. Organizar um conjunto de eventos no mesmo espaço e calendário é muito desafiador e necessita grande desprendimento das lideranças e de um grupo disposto a deixar parte de suas atividades particulares e profissionais, para dedicarem-se a algo que é para todos. Muitas horas de trabalho, grandes dificuldades para “agradar” a maioria, dificuldades de conseguir patrocínios, participantes, controlar orçamento, atrair público e ainda torcer um clima favorável, desafiam os organizadores. Aqui vai a primeira reflexão: o quanto cada um de nós e o conjunto da comunidade ser grato e mostrar seu agradecimento às pessoas que dão seu precioso tempo e energia para criar um evento à altura das expectativas e desejos da comunidade?

Visito várias feiras e exposições, tanto a título de entretenimento e companhia da família, como prestigiar ao trabalho abnegado de quem se dispôs a organizar tudo aquilo, sem os quais faltariam atrativos na região. Considerando o que estudo e trabalho, os negócios em exposição e feira sempre atraem minha atenção e não consigo passar só na condição de visitante. Observo atentamente as formas de exposição e venda de bens e serviços, quais são e de onde vêm as empresas participantes. Neste ponto peço uma reflexão aos organizadores de eventos, e especialmente aos que decidem a vida de suas empresas. Tenho visitado eventos em que uma grande maioria dos expositores e dos fornecedores vem de outros municípios e regiões. É exatamente neste objetivo que ao meu ver, deveriam ser centradas as exposições e feiras comunitárias. É preciso refletir o quanto o evento contribui com a economia local, quando o grande volume de vendas é realizado por empresas de outras regiões.

Sabendo que todos os negócios concorrem pelas economias das pessoas, neste caso, pelo bolso dos moradores, quando a comunidade se mobiliza para um evento que faz as pessoas saírem de casa e gastarem suas economias, o objetivo deveria ser o estímulo a circulação de dinheiro nos negócios e entidades do município, mantendo empregos, gerando renda para os trabalhadores e empregadores, além de tributos para melhorar a infraestrutura e os serviços de limpeza, educação e saúde locais. Ao circular em várias exposições e feiras é possível verificar empresas que se especializaram em vender nestes locais, o que é um bom negócio para aqueles profissionais e aquelas empresas. Todavia, para os negócios instalados no município e para o conjunto da economia local, quando o evento tem na maior parte dos expositores, empresas de outras regiões e que vendem bem, levando boa parte dos poucos recursos da população disponíveis para o consumo, é preciso fazer uma grande reflexão como todos os atores deste processo.

O primeiro passo é entender os motivos pelos quais as empresas locais não foram, ou não vão expor; e quando vão, se não vendem bem, quais os motivos? O que é preciso fazer nas empresas locais e nos eventos? Se não é possível e enquanto não é possível fazer melhor, é preciso pensar o quanto o evento contribui com a economia local. Porque a administração municipal deveria colocar dinheiro e serviços num evento que promove a evasão de recursos da economia local? Porque as entidades locais deveriam promover e tantas pessoas trabalhar voluntariamente numa atividade que tem por efeito colateral a perda de recursos da população para compras em empresas de outras regiões?  

Um abraço e até a próxima!
 

Marcelo Blume é Administrador, Especialista em Marketing e Mestre em Engenharia de Produção. Professor da UNIJUÍ e convidado em diversas IES. Sócio e consultor da Referenda Consultoria. Palestrante, pesquisador e escritor, com artigos e livros publicados.

Email: marcelo.blume@referenda.com.br

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