Coluna de Oscar Pinto Jung

O cirurgião humilde
31 de Maio de 2016 às 08:00

Todos os sábados leio a coluna do Dr.J.J.Camargo, cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre. Em cada coluna uma lição de humildade. Em linguagem simples, acessível a qualquer um, o Dr. Camargo encanta o leitor com histórias de sua movimentada vida profissional. São episódios marcantes de seres humanos atormentados com graves enfermidades, em desesperados pedidos de socorro. Não conheço pessoalmente o renomado cirurgião torácico, mas já trocamos e-mails. Num deles, o médico me escreve, com muito apreço:

- Quando vier a Santa Casa me procure, vamos trocar um abraço.

Pelo que sei o Dr. Camargo não é adepto de nenhum segmento religioso. Mas precisa? Quem exerce a medicina com profundo senso humano como ele exerce tem o Amor como religião. Apesar de famoso nacionalmente e até no Exterior, ele não conhece o orgulho. A todos o mesmo tratamento respeitoso.  Em recente coluna o Dr. Camargo sublinha:

- Os poderosos inteligentes sabem o quanto é admirável exercer a humildade.

Outro dia o Dr. Camargo contou a passagem de cliente rico, envaidecido pela fortuna, que não concordara em ceder seu lugar a um paciente dependente de oxigênio. Indagado pela secretária do consultório, respondeu, rispidamente:

- O meu horário foi marcado com antecedência e não tenho nada a ver com isso!

Paciente de cirurgia, o mal humorado teve ótima evolução pós-operatória, mas deixou má impressão aos funcionários mais humildes do hospital. Arrogância nos gestos e nas palavras, que repetia habitualmente. Já presenciei cenas parecidas quando estive hospitalizado no Santa Clara, um dos hospitais do complexo da Santa Casa. Vi e ouvi mulher idosa falar aos gritos com os técnicos de enfermagem que a atendiam em dupla. Queria tratamento prioritário. Os meses se passaram e o cidadão desrespeitoso voltou ao consultório para nova revisão. Nesse meio tempo a lei de causa e efeito, sempre justa, atingira o paciente que se considerava poderoso.

Separado da quarta esposa, com a partilha de bens e incontáveis despesas, o paciente empobrecera. O médico observou que a arrogância antiga desaparecera. O egoísmo sumira. O desamor, também.  Ao sair do consultório o paciente abraçou o médico e manifestou agradecimento. O Dr. Camargo fecha o emocionante depoimento com estas palavras:

- Bastou uma confissão de abandono para que eu sentisse uma pena enorme e esquecesse o quanto aquela punição tinha sido regada por uma vida de egoísmo e desamor. Talvez a minha comiseração tenha sido influenciada pelo pesar atávico que sinto dos ricos que viveram só para si e um triste dia descobriram, com desespero, que todo o dinheiro pode acabar antes que a vida termine.

A FRASE DO CHICO XAVIER, curtida por Vander Moreira da Rosa: “Quem condena atira uma pedra que voltará sempre ao ponto de origem”.
 

Advogado, integrante da Academia Santo-angelense de Letras. Escreve nas edições de terça-feira. 

Email: pintojung@terra.com.br

Mais artigos de Oscar Pinto Jung