Coluna de Oscar Pinto Jung

Pequenos gestos
11 de Outubro de 2016 às 08:00

Por lidar com seres humanos fragilizados pela enfermidade, o médico pode se constituir em um fiel instrumento da Espiritualidade Maior, independentemente de sua crença religiosa ou mesmo de não ter nenhuma. Em livro recém lançado, o Dr.J.J.Camargo, cirurgião torácico, professor  e colunista de jornal, ressalta a importância do diálogo entre o médico e o doente, em prol da recuperação deste. Segundo o autor,  o médico não precisa demonstrar pressa quando visita o enfermo hospitalizado, precisa sentar e conversar. Entrevistado, a propósito, o Dr.Camargo mostrou toda a sua grandeza de alma, ao dizer:

- A maioria dos médicos desperdiça a oportunidade de se aproximar dos pacientes como pessoas. Eles não se dão conta de que pequenos gestos já estabelecem vínculo. Abraçar o paciente é importante.

A amiga Vera Lúcia Lied, filha do Jorge Lied, o homem da Farmácia Confiança, que era tradicional na cidade, nos traz depoimento comprobatório da lição dada pelo professor:

- A equipe do Dr.Camargo, chefiada pelo seu sobrinho Dr.Spencer Camargo, fez cirurgia em meu irmão, Jorge Alberto, o Beto. Foi um sucesso. E a maneira deles de tratar o paciente e seus familiares é incomparável. Ao término da cirurgia o Dr.Camargo ligou de dentro do bloco cirúrgico para dar notícia aos familiares. Até hoje o Dr.Camargo e o Beto conversam por telefone. Embora todas as horas preenchidas, ele não tinha pressa. Sentava e conversava sobre vários assuntos. O abraço a que ele se refere é real. Aí está mais do que a metade da cura.

O médico Adolfo Bezerra de Menezes, que clinicava no Rio de Janeiro, era assim como o Dr.Camargo. Recebia os pacientes com a máxima consideração e a conversa olho no olho. Outro dia, pedreiro que trabalhava na minha casa, ao ver desenho de fisionomia do inolvidável médico, que era tido como o Médico dos Pobres, comentou assim:

- Sei que além da consulta, ele dava também os medicamentos para os clientes pobres.

Certa vez, Bezerra, ao constatar que os bolsos estavam vazios, deu forte abraço ao paciente necessitado. O abraço produziu bem enorme ao carente de afeto. Quando em dúvida sobre a real situação do meu quadro de saúde fui consultar com o Dr.Franke, em Ijuí, apontado pelo colunista David Coimbra, como referência no Rio Grande do Sul. Com todos os exames em mão, ele me despachou com forte abraço (imaginei que seria assim o abraço de Bezerra de Menezes e Camargo), com palavras definitivas:
- Você não tem nada.

A PALAVRA DO ESPÍRITO ANDRÉ LUIZ (médico em sua última passagem terrena): “Não perca tempo e serenidade perante as prováveis decepções da estrada, porquanto aqueles que supõem decepcionar-nos estão decepcionando a si mesmos”.

Advogado, integrante da Academia Santo-angelense de Letras. Escreve nas edições de terça-feira. 

Email: pintojung@terra.com.br

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