Coluna de Oscar Pinto Jung

Cine-Teatro Municipal
03 de Outubro de 2017 às 08:41

Em 1941, Santo Ângelo se orgulhava de inaugurar o Cine-Teatro Municipal, tendo como gerente Renê Stumpf (de Passo Fundo, concunhado do Luiz Alberto Vilas-Boas de Azevedo). Muito amplo, cadeiras de madeira, situado à Rua Marquês do Herval, esquina com a então Rua 14 de Julho, o Municipal encantou a comunidade. Enfim, entrávamos na Era do Cinema, a grande atração da época. Todas as sessões do Municipal contavam com casa cheia e não dava pra chegar atrasado nas duas dominicais. Ninguém queria perder os filmes de Gary Cooper, Elizabeth Taylor, Esther Williams, da sueca Ingrid Bergman, da francesa Brigite Bardot e das italianas Gina Lolobrigida e Sofia Loren.

A matiné do domingo, com programa duplo, era a festa da gurizada, que batia pés com os filmes de mocinho (farwest), com seriado do Flash Gordon ou ria muito com as comédias do Gordo e o Magro. Antes, na escadaria que dava acesso ao cinema, havia a tradicional troca de gibis, de que estão bem lembrados os amigos Cláudio Karlinski (“a gente era feliz, e sabia”), Rudimar da Luz, Bruno Krug e muitos outros. Detalhe digno de nota: as bicicletas ficavam na escadaria, num canto, e ao término da sessão continuavam no mesmo lugar! Quem se atreveria hoje a deixar bicicleta na frente do cinema? No lado de fora, o “seu” Bigode vendia pipoca e carapinha. Na calçada da frente, o Antoninho Gordo vendia frutas e legumes.

Nas quartas-feiras, o Municipal apresentava o Dia da Moda, em que o sexo feminino pagava meia-entrada. Na sexta-feira, com preço reduzido do ingresso, o Dia do Troco. Programa triplo: seriado, farwest e comédia. A sessão terminava à meia-noite e todo mundo voltava pra casa, com a tranquilidade dos monges tibetanos. As ruas da cidade pareciam ruas europeias. O Delciomar Boranga conta que transitava por aí sem nenhum sobressalto, tudo era paz, ninguém sabia o que era tráfico ou consumo de drogas. O plantão policial bocejava... Mas, além dos filmes, o Municipal também proporcionava teatro para nós. Companhias teatrais se apresentavam no vistoso palco, para nossa alegria. E também cantores famosos. Vicente Celestino cantou O Ébrio (tema de filme) no teatro santo-angelense.

O professor e músico Antônio Kalb nos  lembra que “o palco do Municipal tinha as dimensões dos palcos dos grandes teatros brasileiros, com “urdimento” para trocas de cenários, dois enormes camarins nas laterais e poço para a orquestra. O teto escondia o túnel acústico que partia da saída de som do projetor e percorria toda a extensão da sala e acabava atrás da tela, num projeto perfeito de engenharia acústica. Além do mais, o prédio era de uma solidez capaz de durar mil anos, algo semelhante às ruínas de São Miguel das Missões”. Com o advento da televisão, os artistas do Rio e São Paulo deixaram pouco a pouco de nos visitar e o belo palco de ser utilizado.

O Cine-Teatro Municipal ainda é recordado com muito carinho pelos santo-angelenses de mais de quarenta anos. Em próxima coluna, vamos abordar os demais locatários do alteroso prédio de propriedade de Henrique Moller Filho, construído pelo Engenheiro-Civil José Carlos Medaglia, ocupando partes da Marquês do Herval e partes da atual 25 de Julho. Os dois deixaram nome na expansão predial deste solo missioneiro.

A FRASE DO CHICO XAVIER; ‘Planejar a infelicidade dos outros é cavar com as próprias mãos um abismo para si mesmo”.
 

Advogado, integrante da Academia Santo-angelense de Letras. Escreve nas edições de terça-feira. 

Email: pintojung@terra.com.br

Mais artigos de Oscar Pinto Jung