Coluna de Renato Schorr

A pacificação das favelas 2
19 de Novembro de 2013 às 11:27

Pandeiro de Prata - de Túlio Piva (santiaguense)
Ele nasceu no morro / Não sabe nem em que data / Até pensava que a lua / Pendurada no céu / Fosse um pandeiro de prata. Foi na batida do samba / Que ele aprendeu seus primeiros passos / Mas a vida foi má e ele cresceu / Calejando seus braços / Mas que importa que tudo / Lhe traga dissabores / Se ele tem o samba, / se ele tem o samba / Pra cantar amores.

Esses tempos nos conduzem à nostalgia! Embora o samba jamais morra no morro, perdeu ele o simbolismo d’outrora. Havia um tempo em que no morra a lua chegava de mansinho, acarinhando as faces e as quinchas dos ranchos, velava o sono dos sambistas e das gentes do morro. No topo dos morros era a morada daqueles que não tinham onde armar morada. Do sopé ao topo, passando pelas encostas, tudo fora se transformando e o entorno do morro ganhou mais valia. Até que um dia, o morro fora “descoberto”! Aí ele perdeu a singeleza, o lirismo e a beleza. Pelo menos para os seus primeiros e ilustres residentes. Agora o morro possui duas conotações! Quais? Você leitor sabe bem...!

O calendário não pode ser condenado pela modificação dos morros, por igual, das restingas e até mesmo das planuras, quando o assunto se relaciona com as gentes. A população do planeta se agigantou desordenadamente, enquanto a estruturação das comunidades ocorria de forma diametralmente oposta. Lenta, interesseira, mal gerida, desvirtuadamente, sem planejamento estratégico, sem olhares e respeito com os espaços da própria natureza, esses, dentre dezenas de outros itens restaram inobservados. O homem se fez ganancioso, egocêntrico, ao pé de dezenas de outros qualificativos.

Retomando a questão da pacificação, assunto abordado na coluna passada (07/11/13), quando as forças públicas, infelizmente irresponsáveis, decidiram pela instalação de módulos policiais em áreas conflitadas, apenas adotaram a ocupação, ignorando, todavia, a necessidade de se estabelecer as metas e objetivos a serem alcançados, se é que os governantes tinham-nas em mente. Assim, as ações postas foram e são inócuas, vazias, conduzem-nos a resultados inconsistentes.

Quando as “autoridades” adotaram a ocupação das áreas mais próximas das realizações dos jogos da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016, avaliaram apenas as questões de segurança próximas aos cenários dos jogos e do atletismo. Houvessem outras intenções, jamais teriam empurrado os problemas morro abaixo, despejado-os mais adiante. Pelo contrário, teriam arregimentado forças no sentido de oferecer aos contraventores, reduzidos ou não, um outro modo de vida, com cursos de aperfeiçoamento profissional, envolvendo-os com a reeducação e o aperfeiçoamento profissional, relocando-os em espaços distantes daqueles em que habitavam e do tipo de vida que levavam. E as chefias? Esse é o ponto nevrálgico!

Sabemos o que o leitor está esbravejando: mas são milhares de envolvidos! Exatamente aí está a questão! São milhares de brasileiros desencaminhados, ou “encaminhados” em outras atividades, diversas daquelas contidas nos códigos de conduta social. Além desse contingente (imenso), outro próximo a esse habita as prisões. É doloroso! Ainda assim, precisamos pensar e agir! Enquanto o infortúnio dos resultados do consumo de entorpecentes, entre outros males, consumirá a maior parte das verbas para a saúde.

As ações adotadas se mostraram infrutíferas, exceto, nos gastos das verbas públicas, essas sim, saem dos cofres aos milhões e vão parar em algumas mãos sem resultados práticos. Pensar a gestão pública requer visão e o domínio da questão, necessita de planejamento, no presente e do gerir das ações com os olhos voltados ao futuro. A estruturação das cidades, sem encurtar o campo é tão urgente e necessária, quanto o lançar das sementes para colher alimentos. Para tanto, há que se ter a desincompatibilização com as questões eleitorais.

Fonte: Jornal das Missões

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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