Coluna de Renato Schorr

Apparício Silva Rillo
23 de Janeiro de 2014 às 09:00

Um dos grandes escritores do Rio Grande, criativo, pesquisador de campo, hilário, e por certo um dos mais geniais poetas, sabia feito poucos, utilizar o imaginário na produção de seus trabalhos. Ora, patrono da Cadeira nº 16 da Academia Santo-angelense de Letras, embora na saudade, merece nosso reconhecimento. Transcrevo o texto abaixo, da obra Rapa de Tacho, causos gauchescos:

Hotel do Guedes II
Seu Guedes, que já conhecemos, estava com seu hotel lotado. Era inverno e os viajantes e hóspedes não tinham como afastar-se de São Borja. Pelo trem de Santa Maria chegou um cliente novo. Não havia vaga, informou o seu Guedes. Tanto o recém chegado insistiu que seu Guedes encontrou uma solução:
Olhe, só há um jeito nesta hora da noite. Tenho um hóspede dormindo num quarto de duas camas – o último no final do corredor. O homem é surdo e brabo. Não gosta de companhia, paga diária dobrada para não ser incomodado. Mas, pra lhe servir, posso abrir uma exceção e ceder a cama vaga. Mas, pelo amor de Deus, não faça barulho, abra as malas com todo cuidado, não acenda a luz. Deite-se sem fazer ruído, amanhã o quarto desocupa e o senhor fica à vontade.
Na contingência o cliente fez o que lhe foi solicitado. Na meia luz do quarto observou o companheiro que dormia, silenciosamente, nem mesmo seus suspiros se escutavam. Deitado de costas, tinha as mãos cruzadas sobre o peito.
Ao amanhecer do outro dia um reboliço de gente na frente do quarto. Seu Guedes bateu à porta e chamou pelo “contingenciado”: levanta-te rápido, amigo, que temos de retirar seu companheiro.
Sentou-se na cama o viajante. A seu lado, a menos de metro e meio, o companheiro de quarto: um defunto. Furioso, o hóspede enfiou as calças, abriu a porta, deu com o caixão já preparado para receber o finado, duas ou três mulheres chorando, o funebreiro don Hilário com duas coroas na mão, alguns curiosos. Interpelou o seu Guedes: mas então isso é coisa que se faça, seu hoteleiro? Me fazer dormir ao lado de um defunto? Olhe, eu...
Seu Guedes, com a mesma cara de sempre, acomodou a situação:
Não se irrite, o senhor dormiu o sono dos justos, descansou como um frade bem comido e se lhe botou este quarto e esta cama ao lado do viajante que morreu do coração na tardezita de ontem, por sua insistência.
– Mas...
– Não tem mais nem menos. Se eu lhe dissesse que havia um defunto no quarto o senhor ia acabar dormindo num dos bancos da praça. E eu, fique o senhor sabendo, procuro ser gentil com os meus hóspedes. Sai o defunto, fica o amigo. Tudo na santa paz. 

Fonte: Jornal das Missões

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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