Coluna de Renato Schorr

Flormâncio
18 de Setembro de 2014 às 08:00

Todos, todos sem exceção chamavam-no Flor. Viera em tempos outonais, mas não ficaram rastros para conduzi-lo de retorno, nem mesmo, aos que lhe pretendessem saber das origens. Flor, o paisano. O cuidadoso, alguns mencionavam. Essa alusão provinha dele esconder a origem e as razões da debandada da sua terra natal, jamais descoberta! Flor era “penteado” num carteio do baralho e ninguém descuidava das prendas, porque paisano nunca se sabe, qual o tino e o trato no campo do amor.

Certa feita, sob olhares de soslaio(embora esses restassem eternos) o chimarrão e a canha rodavam de mão em mão, sob o calor do braseiro, quando se achegou o Nicácio trazendo o vilão às costas, para alegria dos tições. Formou-se ali uma sinfonia galponeira e na inspiração do alambique, os travadores exaltaram aptidões e os versos mais ricos salpicaram atiçando o brasedo, igual a graxa. O violão também rodava e foi quando coube ao dito, que as chispar estalaram! A peonada desconhecia da destreza do cabra. Oigalê, o índio se mostrou taura no manejo das cordas, o alvoroço estava formado. Um gurizote provocou, esse é o Tio Flor. A partir daquele momento houve um consenso, por respeito seria chamado de Seu Flor. E foi o Seu Flor quem provocou os travadores, os cantores e payadores, para o repente, nenhum oponente se arpuou.

Feito um galo fino, provocava no verso, cousa linda, dessas de saltar faíscas de adagas em ritmo para a dança da chula. Mas tudo no mais profundo respeito, peleja só nos versos. Pois, foi Seu Flor quem no tempo e num lugar longínquo cravou a sua lança de taquaruçu, defronte àquele galpão, sacando a faca de osso que trazia na cintura, bonita de fazer inveja para defunto, astuto, ainda demarcou um território com os seus limites, assinalizando as divisas. Aí mostrou os caminhos, as ferramentas e traçou os objetivos. Terra de guapos, afirmou! Um punhado de xucros cravaram as suas facas circundando o imaginário território. Essa querência será gaúcha! Eterna, por excelência. Por esses rincões o sangue vibrará feito guizo de cascavel. E assim foi que o território se fez Sul-Rio-grandense, guardada por milhares de espadachins invisíveis.

Quis o destino que a gente desse pago bravio na essência, se tornasse apegada aos costumes, arraigada ao solo, digna no proceder, altiva, preservadora de legados, fraterna com o semelhante, xucra e dócil ao mesmo tempo, idealista, trabalhadora, guapa, alegre, festiva. Flormâncio sonhou a geração de um novo protótipo, na forja da miscigenação, fundindo na nova estampa, os valores intrínsecos de cada segmento étnico, essências vitais ao entrelaçamento.

A nova estirpe efetivamente se fez nos moldes desenhados por Flormâncio, e age ao rigor dos regramentos. Todavia, sob a vigília constante do sonhador, os espadachins deste que se transportam em obreiros de todas as lides e ofícios, efetivamente, são dóceis, amistosos e fraternos, apegados e arraigados ao solo, conforme os olhos do sonhador. Ainda que desprezados se fazem de desentendidos, ainda que pisoteados revolvem da terra chão, ainda que humilhados se ajustam de peão, diante da origem humilde da extirpe.

Em que pese os fatores elencados, ainda por questões igualitárias, aos herdeiros do grande legado de Flormâncio, se suplica, sejam eles respeitados em seus sentimentos e legados, ainda que em seus galpões lhes seja facultada a primazia de ostentar a rudeza da vestimenta, dos pés descalços, e por igual, respeitado o direito do chão batido. Evite-se um novo bater de tições!

Fonte: Jornal das Missões

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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