Coluna de Renato Schorr

Caminhada
09 de Outubro de 2014 às 08:01

Os humanos, segundo alguns pergaminhos, aportam no plano terreno para cumprir uma missão. Fazem jornada. Dizem haver a necessidade de se estabelecer uma caminhada de aperfeiçoamento, no sentido de merecer uma conjuntura cósmica, onde, em sendo merecedor, trilhar-se-ão passos em dimensões mais elevadas. Em assim sendo, efetivamente, seria algo sensacional.

Certa feita, para os lados de Bagé (RS), uma parteira auxiliou no nascimento de um menino que se fez homem com o nome de Alceu de Deus Collares. Origem humilde, quando piá, segundo conta, fora – quitandeiro, entregador de telegrama (certa feita disse: “Fui engraxate, vendedor de laranjas”), telegrafista, advogado, professor, vereador e prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande, deputado estadual e federal.

Um currículo de certa forma invejável! No caso Collares, há de se ter em mente que o cidadão primeiro exerceu uma atividade profissional, vindo a adentrar as raias da vida política, já consagrado na atividade profissional. Collares se constitui num daqueles exemplos de pessoas bem-sucedidas e, em especial, merecendo o respeito, admiração e a afeição de pessoas distantes dos limites da grei partidária em que movia as pedras do tabuleiro.

Em sendo admirador de pessoas/figuras com o perfil de Alceu Collares, o qual construiu uma imagem junto à grande parcela da sociedade (ninguém contenta toda a multidão), fundindo a figura com a personalidade, construindo uma imagem bonachona, extrovertida e querendona, embora tenha exercido cargos de relevantes na sociedade gaúcha, se manteve humilde. Ele semeou CIEPs (94), condomínios rurais, o sistema QGQP, instituiu a Consulta Popular – com os Conselhos Populares (hoje, Coredes) –, além de inúmeras normatizações para o desenvolvimento da sociedade gaúcha. Nem tudo foi resolvido!

Aliás, um dia desses, após o futebol, comentando as administrações do nosso pago, ao topar com a figura de Collares, um dos interlocutores – Leonardo Schoffen – fez questão de mencionar algumas passagens da vida do governante, citando, entre elas, que desconhecia da coloração partidária quando recebia reivindicações para as comunidades. Inclusive, fez questão de destacar um momento, de tantos em que Collares esteve nas Missões, quando um seu correligionário lhe fora chorar as pitangas, diante da charla descontraída entre o governador Collares e o então vereador Leonardo, recebendo o choromingante uma resposta firme do estadista – “Sou o governador do povo gaúcho e não de um partido”. Essa imagem Collares difundiu por onde passou.

No mesmo sentido, disse Leonardo, Collares jamais questionou a cor partidária dos funcionários nas repartições públicas; ele foi extremamente responsável e foi o melhor governante com quem já trabalhei. “Para a assunção dos cargos de chefia, somente havia um critério – a qualificação profissional”, disse. Essa passagem do governante veio em boa hora, pois desconhecíamos essa faceta altamente positiva.

Pessoalmente, participamos meia dúzia de dias da primeira administração de Waldir Pedro Frizo em São Miguel. No período o prefeito conseguira agendar uma visita ao governador e com ele iria o presidente do partido Pedro Skalinski. Sabedores da viagem, elaboramos um documento solicitando ao governo do Estado um posto avançado Banrisul. É lógico que o requerente era o partido, por seu presidente, com o aval do prefeito, e os termos iniciais foram esses: “Adentrando o Palácio…”. No retorno da visita, Pedro Skalinski se dirigiu à sala em que estávamos e, radiante, foi dizendo: “Adentrando o Palácio”. Gargalhou! O sorriso dele evidenciava que Collares havia lido em tom poético a solicitação. São Miguel não tem mais o posto avançado, mas, sim, uma agência.

O exercício de cargo público requer trato meigo com o povo. Ele, povo, é o detentor do cargo, exercido, sim, por um cidadão. Logo, de um eleito, se deve esperar um carinho especial pela sociedade que representa. Sopesando, o administrador está governante! E as marcas indeléveis que restam semeadas pelos caminhos por onde passam os cidadãos, em qualquer circunstância, restam semeadas as flores ou os espinhos que colheremos. O gosto ou o contragosto do amanhã! A caminhada no campo social pode realçar a nossa evolução ou involução terrena!

Fonte: Jornal das Missões

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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