Coluna de Renato Schorr

Mãos que atraem
12 de Novembro de 2015 às 08:00

A tardezita se anunciara com aqueles esplendores esporádicos. Ar primaveril e uma doce garoazinha, quase névoa, deitando nalgum rincão. Um alpendre se oferecia em risos, ao sorver de mais um mate. O mate da esperança! Jamais seria o mate da esperança, eis, naquele recanto feliz, a felicidade fizera pousada. Todos os mates lhes cabiam tão bem, parecia, esperança satisfeita! Realizada!

Entre as flores, pedras e árvores, havia um lagarto cobiçando a sua presa. A lagartixinha, buscando o seu sustento. Os sabiás, nas últimas revoadas do dia, já cantavam ao longe, próximo ao local do repouso. Os joões-barreiro, sempre alegres e levando por diante a própria felicidade, alcançando-a ao mundo. Ora aterrizavam nos jardins, esgaravatando-os, em outras, estufavam o peito em cantoria, feito o rei do terreiro. Outras espécies completavam o cenário, num afago da natureza, aos mateadores.

Nesse entremeio, algo mágico atraía a si os olhares, era os beija-beija - os beija-flores. Diminutos, mas ágeis. Pequeninos, porém, belíssimos! Multicores, em cores múltiplas e em suas sub-espécies, ali estavam, ao alcance dos olhos, das mãos, em especial, ao alcance das mãos que atraem. Literalmente! As aves, os bichos e as próprias árvores e flores, são inteligentes e sensíveis, eles compreendem a atitude das pessoas, percebem de onde pode advir agressão ou carinho.

Na avezinha, quanta sutileza, quanta magia, uma beleza sem fim. E nos seus movimentos, então?! Sabemos, o leitor conhece bem melhor que o colunista, esta mágica espécie, o seu “pousar” no ar, sua perícia em buscar o néctar em pleno movimento. Ah, ela deve ser estudada, essa sua plasticidade e também, por oferecer subsídios para novos inventos em benefício da espécie humana.

Há pessoas tão dóceis quanto os beija-flores, estas, conquistam a confiança e a credibilidade das aves e essas vêm pousar-lhe nas mãos. Decididamente, somos seres distintos, imperfeitos, porém, reais e absolutos. Os nossos olhos flecham ou acolhem, nossa mente condena ou estende a candura, nosso coração é de pedra ou de doçura.

Quisera ser a mão estendida em carinho, ao beija-flor, recheada de bondade, levada em néctares, límpida, sem impurezas. Uma mão confiável se abre em bondade para a pequenita estrela, elevada em “ciência” da nobreza, sem expectativa de lucros e/ou vantagens. A imagem da foto, descreve um gesto de bondade universalizada.

Vinho e água, tão distintos entre si! Pessoas e pássaros, quanta disparidade! Viver em harmonia entre as espécies transpõe a normalidade, daí, a perplexidade ao nos depararmos com imagens, gestos e atitudes atípicas, qual essa! Haveremos de compreender a sincronia, como resultante exclusivo, do estágio de espírito que nos encontramos. Ao contornarmos a montanha, veremos a outra face.
 

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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