Coluna de Renato Schorr

Sonhos de guri III
16 de Junho de 2016 às 08:00

... Um mundo se abriu! Vaqueano e Lunário se deslumbruram com o que viram. Ainda na madruga, após a curva que sempre engolira o pai de Vaqueano, todas as vezes que ele desaparecia do rancho, para voltar de quando em quando e seguindo-lhe os passos, quando repentinamente pasmaram. A vontade fora de soltar alaridos de contentamento, essa, somente foi abortada pela necessidade do extremo silêncio, porque não podiam ser vistos, diante da missão inapelável de descobrir-lhe o destino. O paradeiro!

A Lua se encontrava em estado de graça (barriga de mulher em véspera de parto), no momento da apresentação da orquestra de pistonistas de São João, na arena teatral lunar, especialmente construída para os momentos dos espetáculos noturnos, o que contribuía ainda mais com o majestoso momento. Um cavaleiro andante na terra, dois garotos espiões, para melhor compreensão, tal uma foto em preto e branco, distante, captada a noite, na curvas estrada, para esquerda ele desaparecia, para direita, lá seguia ele altivo.

Um encantamento...! Os piás de ontem, ora mocitos, conheciam todos os recantos do seu mundo anterior, vistoriado tanto na noite quanto no dia. Haviam desvendado as fendas das rochas, examinado as cavernas, minuciosamente, conheciam as espécies de peixes e animais e se tornaram exímios conhecedores da floresta. Agora, embora no repouso merecido do Sol, a paisagem se oferecia espetacular. Riam-se graciosamente, já nem se preocupavam em ser vistos, o momento era fascinante.

Num daqueles momentos desavisados, silenciaram, as nuvens encobriram totalmente o brilho encantado vindo do alto. Seguiram em silêncio, perdendo de vista a razão daquela aventura, soltaram cochichos de comunicação, na certeza das palavras ser ouvidas em distância maior, pronunciadas na escuridão, ainda que conhecedores incontestes da realidade campesina momentânea, a voz da natureza se fazia ouvir, dando azo, aos alaridos do bichos, antes despercebidos, ante a prosa eloqüente.

Quando retorna a luz soberana do alto, cuidadosamente, procuram pelo pai de Vaqueano, abrigados sob o manto de uma frondosa tarumã, ao longe perceberam luzes artificiais, por desconhecidas, imaginaram estrelas tantas pousando na terra, iguais aquelas, que beiravam a terra, onde o céu beija o horizonte, no único rincão conhecido até poucas horas passadas. Lunário solta um suspiro de alívio, apontando na direção da Dalva, estrela mãe que lhes guiou na ausência da soberana do alto.

A posição em que se encontravam permitia sonhar acordado! O fujão agora aparecia no ponto mais elevado, uma imagem encantadora, ele com a sua montaria, no lugar mais distante do mundo! Os mocitos, perplexos, vendo os reflexos da aurora, extasiados de alegria, com as novas descobertas, desencilharam seus pingos e sobre os arreios, deram asas a imaginação!
 

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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