Coluna de Renato Schorr

Aos campesinos e motoristas
21 de Julho de 2016 às 08:42

Este texto, em partes reescrito, traz na íntegra, uma parte já editada, mas relido, não há por onde deixar de publicar!

Estas mãos cascurrentas – mãos de valor

Levanta antes dos galos, / mateando lembranças / segura firme a cuia, / aguarda a barra do dia / bombeando o horizonte, / saúda seus deuses / suas preces comovidas / alcançam os céus, / sorve mais um amargo / e parte para dura lida. Mais uma jornada / cumpre seu ritual, / faz silêncio no embate / pra rotina faz louvor / cantarolando enrijece / segura firme o arado / semear, cultivar e colher / ao homem enobrece, / essas são lições colhidas / no estandarte da razão!

O sereno cobre a terra / molha o cabo das ferramentas / nada disso ele lamenta / sabe bem da sua missão / a fome quer alimento / arar e plantar, serena guerra / torna rude o lavrador, / mas não há maior sabor / senão colher da semeadura / o fruto que sacia a fome da nação! Cultiva com sentimento / vibra com os resultados / ainda que ao desagrado, / agradece, faz festa pra colheita / espia ao longe, arredio / quando chega ao povoado / sabe que as gentes da cidade / desgostam do seu andar / lançam azedo olhar, / repelem as mãos cascurrentas!

Mas ainda que cascurrentas / essas mãos são honradas / argamassam com pudor / o mais nobre dos palatais / constroem lindos pomares / irrigam as hortaliças / vazam cultivares com treliças, / redescobrem primitivos ervais / essa essência do matiz primitivo / mantém o costume nativo! Na esteira do labor / esse rural produtor, / tenha as mãos carcomidas / no manuseio da rusticidade, / não tenha a plasticidade, / e chora quando mãos nobres / estendidas, para um aperto fraterno / repelidas, deixam um vazio eterno, / fazendo sumir o próprio chão, / cortam a carne, a alma e o coração!

Vale acrescentar, postula-se, que os olhos dos urbanos, possam ser menos agudos e mais fraternos aos campesinos de todas as lides, por igual, aos motoristas calejados no volante, rodando por esburacados asfaltos e sem a menor garantia do retorno ao lar, sopesando assaltos, na luz do dia e no eterno do breu! Num país onde malandragem merece troféu e o trabalhador é punido por honrar o labor. Nesse país, onde a honradez está na gravata, seus ostentadores são louvados, carregados em liteiras e os modestos trabalhadores, beiram ao desprezo, sob as leis daqueles. Nesse país, onde a lei ganha o afogadilho, quando está em jogo o malfeito dos palacianos, prestes a condenação, mas o demais da nação, fica a mercê da bandidagem ou ‘bandidagem”.

Honrados são os verdadeiros trabalhadores, perdidos nos fundões, sem a menor guarida, extorquidos pelos bancos, assaltados por contraventores e o produto de seus suores, merece migalha, dormem em colchão de palha e se cobrem com o poncho da lua, mas não perdem a esperança, de um dia receber um aperto de mão fraterno, embora suas mãos “cascurrentas”!
 

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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