Coluna de Renato Schorr

O Taquarinchim pede vaza
08 de Dezembro de 2016 às 13:29

Cidades abertas em flor, cidades cobertas de mau humor, cidades floridas, cidades fétidas, cidades contagiantes, cidades desconfortantes, cidades sorrisos, cidades infelizes, cidades atraentes, cidades decepcionantes, cidades encantadoras, cidades desalentadoras, cidades emolduradas, cidades esqueléticas, cidades “vaidosas”, cidades infecciosas! A cidade ou quem nele habita?!

A luz das cidades está nos olhos do seu povo! A alegria, no contágio de vida da sua gente! A esperança, “se alicerça” nos nascituros! As virtudes se espelham nas “músicas que dela ecoam”! O progresso responsável verte dos jardins inganansiosos! A beleza das cidades nasce na raiz de sua gente! O convívio fraterno, na docilidade das gentes! As colheitas infrutíferas representam as consequências - os dejetos de seus dirigentes!

No canto dos cardeais, sinceridade; nos olhos da lua, encanto; no brilho sol, potência; no cintilar das estrelas, chamego; nas brisas matinais, carícias; nas forças do vento, combustão; no galopar do coração, amor; nos olhos do fogo, paixão; na cristalinidade da água, saciar; na alma do ser, alvo/turvo! No planar das aves, leveza; nos cantares da floresta, pureza; no tropel de corcéis, xucresa.

Na cidade fim, as manhãs nascem gris, os sóis brilhantes, as tardes caem rubras, em noites  de luas e estelares, as madrugadas vem enamoradamente calientes, aos catres adormecidos. Na cidade fim, há córregos de almas mortas, por arruinadas atitudes, indecentes aos banhos dos emplumados. Nos riachos da cidade fim, há suplicas de vida, esperança infinita, resistência homérica, luta feroz, vontade ímpar, pulmão gigante, força limitada.

Um riacho “tombado”, entre cílios e sem os cílios, o já lendário Taquarinchim reponta a saudade dos tempos, da leveza das suas águas, do encanto das suas cachoeiras, dos piqueniques, dos romances, dos banhos aos luares, da vida pulsante, do canto das aves e peixes em romaria. Ora, bem, ora reluta entre vida e pós vida ou ressuscitar! Na lama que teima em rolar, carrega os destroços sociais, os detritos, as consequências do amargor dos féis sociais.

Ao vibrar do reponte da saudade, o velho, o antigo Taquarinchim, reluta em despedir-se, agita-se, bate-se contra a triste realidade, reage qual hercúleo, se remoça e pede vaza, oferta-se em súplica, argui: serei um leito límpido, de águas cristalinas, com fauna aquática, terei belíssimos cílios, quero ser visitado, em minhas águas, as crianças podem brincar, se banhar, sorrir, nos sombreados das margens, os adultos podem prosear, chimarrear, contar lorotas, amar, flertar, sonhar, rejuvenescer a alma, viver como outrora, remoçar! Vamos sonhar coletivamente?!

Residíssemos, hoje, em Brasília, dir-lhes-ia: eis os vossos dejetos!

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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