Coluna de Renato Schorr

Pobre rincão
15 de Dezembro de 2016 às 08:00

O rincão fora cercado com todos os cuidados possíveis, moirões de lei, arame com qualidade máxima, grampos de qualidade, palanques cravados dentro e fora d’água e as normas trançadas com tentos caprichados, no estilo do velho Tenório, o mais antigos dos antigos troncos já vistos na América, bem antes da chegados dos europeus. As tranças feitas pelas mãos hábeis de Viramundo, assim conhecido, sem melhor nome, mas um talentoso artesão, nascido, sabe-se lá quando e onde, porém, seu trabalho – um primor!

Saudado nos mais longínquos endereços, por sua beleza nativa, sua gente dócil, a abundância em todos os sentidos, não tardou aportarem os mais diversos tipos de gentios, vindos de distantes paragens, alguns referendados, outros degredados, ainda havia os sem rumo, sem destino, sem origem, despatriados, tresloucados, enfim, mundanos corteses e descorteses,  aventureiros e desaventurados, visando abastar-se, desabastando outros, tudo no mais íntimo direito do exercício do livre arbítrio.

As riquezas mereceram os mais profundos cuidados e tratamentos adequados, no sentido do proteger os “direitos dos aventureiros”, esses, mais avançados sobre aquelas, do guaxo em soro, urubu em carniça, rapinando assim, o que fora plantado pelo Criador, no longevo do tempo. Causando um verdadeiro caus nas pérolas do querido rincão, antes uma preciosidade, semeando nele o exaurimento do solo, escavando e esvaziando as preciosidades minerais, segredando e ceifando a vida dos predecessores.

O idolatrado rincão, onde Viramundo e Tenório saudavam os deuses na voz “da Lua e do Sol,” laçavam estrelas com lacinhos de embira nos açudes, foi tomando outras colorações e arregalados olhos, viam erguer-se edificações distintas, bem distintas das costumeiramente utilizadas, por sua linhagem e os modos de vida muito distantes dos da sua gente. O espanto tomou conta da nação pioneira, o modo de agir dos intrusos, contrariava as doutrinas nativas, rasgando os ensinamentos dos seus ancestrais.

Os antigos senhores do rincão, cabisbaixos, soturnos, indolentes, vagam estradeiras lonjuras,  buscam explicações nos ritos espiritualistas dos seus ancestrais, uma forma de compreender as verdades postas, o proceder dos senhores dos elevados edifícios, gigantes em proporções, todavia, pequeno nas atitudes dos usuários, manifestamente contrários aos doutrinários ensinamentos vindos na proa das navegações, rigidamente aplicados aos senhores do solo, quer crédulos, incrédulos, descrentes ou insurgentes aos novos mandamentos.

Doutos, indoutos, cultos e incultos, estamos todos perplexos, sem rumo, sem destino, sem direção, sem bússola, sem esperança, sem referência, iludidos que fomos desde aquele primeiro desembarcar de gentes com vestes, longas ou não, quiçá, esteja aí a ruína desoladora, que matou o germe honestidade, semeou a ganância, estabeleceu desigualdade, perpetrou a propina, instituiu a corrupção, desonrou a raça e desgovernou a embarcação. Somente uma ação Divina para salvar a nação brasileira.

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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