Coluna de Renato Schorr

A mocinha de tranças longas
02 de Fevereiro de 2017 às 08:00

A vida é suspiro! Feito choramingona, ela veio ao mundo, toda despida, envolta em pureza. Quanta alegria sobreveio ao nascimento, tudo parou, ao seu derredor o mundo fez pousada. Cada gesto, cada riso ou choro, todo o movimento de braços, pernas, olhos e tudo quanto dela faz parte, merecia atenção, carinho, providências. Quanto dos primeiros passitos, então! Uma queda era motivo de alaridos, um corte requeria a imediata condução à casa de saúde. Há tantas passagens na vida dela, que convido ao leitor, para prosseguir...!

A meninita foi à escola, quanta alegria. À professora, quantas recomendações! Afinal, aí estava a filha, o ser que merecia a maior atenção do planeta. Uma exemplar com pedegree. O joelho esfolado? A terceira geração da professora, ainda está condecorada! Os consequentes esfolados... As notas mereceram questionamentos, por que não a máxima? E quando em vermelho então? O mundo desabava.

As primeiras tranças, davam sinais de avizinhamento com a primeira adolescência. As vicissitudes se acentuaram. Brincar, somente com as suas “iguais” em todos os sentidos, no campo das rendas e bordados. Incompreensível essas imposições, para a agora meninota, embora fossem lhe moldando a conduta, talvez, o caráter, ao ponto de ser educada, nos padrões impostos, inicialmente questionados, posteriormente aceitos, naturalmente.

Vem a segunda adolescência, o deslumbramento dos quinze anos, as festas, as fotos, os amigos, as danças, os estranhos, os olhares espertos e apetitosos, a magia dos salões, os pretendentes, as joias, a vaidade, as viagens, os passeios, as amizades estreitadas, as amizades encomendadas, os interesses, o destaque da beleza exterior, a sedução, as propostas, os encaminhamentos, a doçura da mocinha, as tranças - agora longas, os cuidados caseiros, a vigilância, as atitudes severas, a bebida e seus efeitos, os limites pretendidos, tardios ou não.

A menininha das tranças pequeninas, a pré-adolescente, a moça de tranças longas, agora seria uma jovem, futura senhorinha! A vigilância e os cuidados se transformavam em preocupação. O futuro! Com quem sairá, com quem se consorciará? Alguém de bom caráter, boa conduta, estruturado no campo familiar. O retrovisor denotava cuidados, os exemplos cotidianos exigiam cautela. Mas, a exuberância das trancitas agitaram, um mundo de pretendentes. Dentre esses, quiçá, todo o estoque masculino, porém, se enfeitiçou pela magia dos lustres dourados, nada poderia ser melhor!

Todavia, a bonança jamais veio farta, qual montanha gigante. As suntuosidades, os paraísos, as farturas desandaram ante os meios empregados, hoje, as longas e belas tranças deram lugar a cabelos raspados, isolamento, latrina coletiva, ambiente úmido! A vida é mesmo feita de escolhas, sem exceção, todos estamos sujeitos a indução em erro! Pensamos nisso!

Advogado e tradicionalista. Escreve nas edições de quinta-feira.

Email: renatinhoadv@yahoo.com.br

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