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Guaranis enfrentam dificuldades na Aldeia Tekoa Pyau em Santo Ângelo

Cacique Anildo Romeu conta que a saúde e a alimentação são os maiores problemas

09 de Novembro de 2013 às 07:45
Guaranis enfrentam dificuldades na Aldeia Tekoa Pyau em Santo Ângelo
Moradores da aldeia confeccionam cestos de bambu, colares de sementes, arcos e flechas, além de esculturas em madeira

Instalados há três meses onde funcionava antes a Associação Santo-angelense de Proteção aos Animais (Aspa), os índios Guaranis da Aldeia Tekoa Pyau vêm enfrentando dificuldades principalmente em relação à saúde e à alimentação. Ao todo 28 pessoas vivem na aldeia localizada na estrada de acesso à Barra do São João.

O cacique Anildo Romeu, de 22 anos, que assumiu recentemente o comando da aldeia do pai Floriano Romeu, conta que quando algum índio encontra-se doente são elaborados chás e preparados com ervas naturais da mata para a cura de doenças. Segundo ele, apenas em casos mais graves levam o doente para a cidade. “A saúde tem sido uma preocupação nossa e até hoje não recebemos a visita de uma agente para ver a situação das nossas crianças. Seria importante que viessem até a aldeia”, ressalta.

Outra preocupação do cacique refere-se à alimentação, principalmente de itens como frutas e leite para as crianças. “Nós recebemos um auxílio alimentar da Secretaria de Assistência Social e do advogado Paulo Leal, que nos visita periodicamente. No entanto, é pouco e precisamos de ajuda com doações de alimentos como farinha de milho, farinha de trigo, azeite, feijão, massa, erva mate e sabão. A carne nós temos comprado com dinheiro obtido na venda de artesanato, quando a gente consegue comercializar”, explica.

Aldeia

A aldeia é formada por seis moradias, das quais uma de alvenaria e outras cinco elaboradas com taquara e cobertas por lona preta. O abastecimento é normal, pois tem acesso à água encanada. Na educação, as crianças e jovens participam de aulas na Escola Sargento Pedro Krinski, na Barra do São João.

Mariano Benites, de 20 anos, acompanha os cinco alunos da aldeia que frequentam o educandário. O jovem está participando do processo de educação dos pequenos como professor orientando-os no processo de aprendizagem da Língua Portuguesa e o Guarani.

Dia a dia

Um dos líderes da aldeia, cacique Floriano, levanta por volta da 5 horas, para iniciar o preparo do chimarrão. Depois se prepara para repassar orientações ao grupo de trabalho. Alguns atuam no artesanato na elaboração de cestos de bambu, colares de sementes, arcos e flechas, além de esculturas em madeira de curupi, representando animais como onça, papagaio, tucano, tatu e coruja. Outros atuam no cultivo de alimentos numa pequena plantação de milho, amendoim, mandioca, batata doce e melancia. No local também criam galinhas que garantem carne e ovos aos moradores. O cacique Anildo Romeu disse que a aldeia está instalada numa área de sete hectares, com trechos de mata e que seria importante um espaço maior para o cultivo de alimentos.

Anciã Guarani

Norma Romeu, de 66 anos, é a índia mais antiga da aldeia e não fala português. Com a ajuda da tradução do cacique Anildo Romeu, ela explicou que trabalha na cozinha da aldeia orientando as outras mulheres no preparo dos alimentos. Norma é a figura mais respeitada da aldeia pela experiência de vida.

Casa de Reza

O cacique Anildo Romeu revela que me breve deverá ser montada um opy (casa de reza), onde os índios possam cultuar a tradição Guarani. “É um local onde pretendemos nos reunir semanalmente para as nossas rezas ao final da tarde. Estamos trabalhando para buscar uma vida melhor para o nosso povo”, diz o jovem cacique que segue os caminhos do pai, Floriano Romeu.

Coral

Outra atividade desenvolvida pela Aldeia Tekoa Pyau são os ensaios do Coral Tapeporã, que tem 16 anos de fundação. No total são 12 integrantes que entoam belas canções que retratam diferentes aspectos do cotidiano e da cultura Guarani.

Floriano defende que o índio precisa ser valorizado

Com uma ampla experiência de mais de 30 anos comandando aldeias, o cacique Floriano Romeu conta que antes de vir para Santo Ângelo, viveu em São Miguel das Missões e mais recentemente em Porto Alegre. O líder revela que tudo que sabe aprendeu com o seu pai Isínio Romeu, que morreu aos 79 anos. “Ele foi pajé e deixou ensinamentos importantes para o nosso povo. Agora que passei o comando da aldeia para o meu filho, quero me dedicar à vida como pajé”, salienta.

Floriano diz que escolheu viver em Santo Ângelo pela ligação histórica da cidade com a cultura Guarani. “Acho importante a preservação das pedras reducionais e da história do povo missioneiro. Só acredito que o homem branco também olhe para os índios que são os verdadeiros donos dessa terra, que precisam de mais cuidado e atenção”, observa. 

Fotos vinculadas

Anildo Romeu, de 22 anos, assumiu 
recentemente como o cacique da aldeia Cacique Floriano Romeu revela que tudo que sabe aprendeu com o seu pai Isínio Romeu Norma Romeu, de 66 anos, é a índia mais antiga da aldeia e mais respeitada, pela experiência

Por Cristiano Devicari (cristiano@jornaldasmissoes.com.br)

Fonte: Jornal das Missões

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