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Canil municipal é alvo de polêmica

Para a Aspa, animais vivem, no Rancho LM, em situação precária

31 de Janeiro de 2015 às 07:30
Canil municipal é alvo de polêmica
Situação dos animais é criticada pela comunidade; proprietário do Rancho contesta e convida todos a conhecer o local (Foto: Talita Mazzola/JM)

Nesta semana, representantes da Associação Santo-angelense de Proteção aos Animais (Aspa) estiveram em contato com a Redação do Jornal das Missões para prestar esclarecimentos. De acordo com a nota emitida pela associação, as últimas manifestações que ocorreram no município referentes ao estado dos animais abrigados no canil municipal localizado junto ao Rancho LM e também aos serviços prestados pela licitada foram de iniciativa individual de pessoas da comunidade que acompanham as fotos postadas na página da Aspa no Facebook. A entidade realiza visitas mensais ao canil e relata tudo a partir de fotografias, com o objetivo de incentivar a comunidade a adotar os animais.

A Aspa teve, no passado, um local de abrigamento de animais de rua, muitos deles abandonados pelos donos. No entanto, este local foi fechado por ordem das autoridades públicas, as quais entenderam não haver condições físicas nem sanitárias para mantê-los no local. O poder público contratou, então, os serviços de recolhimento e albergagem de cães de rua, por meio do edital público nº 72/2013, cuja licitação foi vencida pelo Rancho LM.

A associação relata em nota, entretanto, que “muitas pessoas foram até a Aspa para relatar inadequações na albergagem existentes no local, dizendo inclusive que os animais estavam muito magros, com pouca alimentação, sem vacinação para doenças como cinomose, tendo alguns como portadores de giardíase, pouca higiene e falta de controle de adoções, entre outras demandas que colocam em risco o bem-estar dos animais e do próprio meio ambiente”.

INÍCIO DAS MANIFESTAÇÕES
Após essas denúncias, a associação realizou uma visita ao rancho em companhia da Polícia Ambiental e constatou que o local necessitava de urgentes melhorias, “seja no aspecto físico, espaço de triagem dos animais, sala adequada para consulta veterinária e falta de balança eletrônica para pesagem e dosagem de quantidade de ração para cada animal, assim como a má higienização dos bebedouros de água, animais muito desnutridos e doentes, muitas fezes espalhadas pelo chão, falta de berçário e espaço de quarentena”.

Fotografando os fatos relatados e postando as fotos no Facebook, houve, então, conforme a Aspa, a reação de pessoas que exigiam ações efetivas para mudanças e adequações no local. “Essas pessoas passaram então a se organizar de forma voluntária e independente, inclusive realizando contato com a mídia”, frisou a associação por meio de nota, salientando que a Aspa formalizará, futuramente, uma denúncia-auxílio, ao Ministério Público, para que ele, em conformidade com a lei, adote as providências cabíveis se assim entender.

ORGANIZADORA DAS MANIFESTAÇÕES
Uma das pessoas que viram a publicação da Aspa no Facebook e, depois, tomou por iniciativa organizar um protesto foi Mônica Krewer, que reside em Veranópolis mas tem familiares em Santo Ângelo. Em entrevista ao Jornal das Missões, ela relata que, quando viu as fotos, revoltou-se, pois desde 2011 conhece a situação do canil, quando esteve no local visitando para adotar um animal pela primeira vez.

“Na época, as condições eram muito precárias, os cães eram muito mal distribuídos e a sujeira do canil era terrível. Retornei algumas vezes, não com muita frequência, porque moro longe, mas sempre que podia ia até lá. Percebi que com o tempo as coisas só pioraram. O descaso com os animais é um absurdo. Comovida com essa situação, reuni um grupo de pessoas que se sensibilizaram, fomos atrás da mídia e fizemos também um pequeno protesto na Praça da Catedral para exigir fiscalização da Prefeitura no local”, relata.

Mônica enfatiza que, mesmo que a Prefeitura não realize a fiscalização, a sociedade civil irá até lá. “Teremos pessoas responsáveis por essa fiscalização. Faremos por conta própria. O que não vamos deixar é essa denúncia cair no esquecimento e deixar que esse descaso aconteça”, afirma, ressaltando que entende que os cães chegam lá debilitados e doentes, no entanto, para ela, continuam nessa situação e, muitas vezes, esse quadro piora, o que revela, na sua visão, a falta de cuidado. “Uma verba de R$ 10,4 mil mensais daria suficientemente para suprir as necessidades básicas, como um veterinário, pois, ao contrário, do que se diz, que há um veterinário responsável pelo canil, constatamos na semana passada, quando uma amiga adotou um cãozinho, que o cão estava com cinomose. O diagnóstico foi dado a ela pelo veterinário ao qual ela levou o cãozinho após adotá-lo e ela tem esses documentos carimbados. Enfim, espero que a Prefeitura tome as medidas cabíveis em relação ao Rancho, porque nós não vamos parar”, conclui.

O QUE DIZ A PREFEITURA
Em contato do JM com a Prefeitura, a assessoria de imprensa relatou que em 2013 foi realizado um processo licitatório para a contratação de serviços de recolhimento e albergagem de cães abandonados. “A vencedora da licitação foi o Rancho LM, que presta esse serviço ao Município, mas não funciona como canil municipal”, diz a assessoria em nota. Questionada sobre como funciona o controle de zoonose do município, já que não haveria um canil municipal, não houve resposta por parte da assessoria.

Conforme o contrato de prestação de serviço nº 161/2013, a empresa é responsável pelo acolhimento e hospedagem desses cães. O documento prevê ainda que a execução dos trabalhos prestados pelo Rancho LM seja analisada mensalmente. No entanto, conforme a assessoria de imprensa, as visitas ao local são realizadas quinzenalmente, por um médico veterinário da Secretaria de Agricultura. “Mensalmente um laudo de prestação de serviço, devidamente assinado pelo veterinário, é apresentado pela empresa”, conclui.

‘O QUE É DE MINHA PARTE FAZER, EU FAÇO’,DIZ PROPRIETÁRIO DO RANCHO
O proprietário do Rancho LM, Sidnei Lissarassa, em entrevista ao Jornal das Missões, explicou que o princípio do trabalho realizado é acolhimento e tratamento de saúde e alimentação dos animais levados até o canil. Ele diz que, ao contrário das acusações que têm sido feitas, os cuidados com os cachorros ocorrem diariamente e os canis são mantidos limpos, com ração à vontade para os cachorros. “A água que disponibilizamos aos cachorros vem de uma vertente de água natural. Os bebedouros contam com uma boia que ativa o enchimento sempre que o nível de água fica abaixo do aceitável, para que os cachorros nunca fiquem sem água. O limo, que muitos alegam ter, é decorrente de a água ser natural. Se for beber água em qualquer lugar do interior, vai ter isso também”, afirma.

Hoje o canil conta com 170 cachorros e sua capacidade é de até 200 animais. Conforme Sidnei, o sistema só funciona pela consciência da população, que, além de trazer, também busca adotar os animais deixados no canil. “No mês passado, entraram 73 novos cachorros e saíram 58. É em função dessa rotatividade que funciona, se não tivesse isso não teria o que fazer com tantos animais”, explica.

FUNCIONAMENTO
Questionado sobre o local ser um canil municipal, Sidnei esclarece que, de fato, trata-se de um canil do Município, por ser mantido pela Prefeitura, ao contrário do que a Prefeitura afirma. Ele ressalta ainda que muitas pessoas falam sobre o canil sem realmente conhecê-lo ou a seu funcionamento. “Gostaria que as pessoas viessem conhecer para ver como realmente é. Fica o convite aberto. É preciso que as pessoas entendam que o que é de minha parte, que é cuidar dos animais, dando comida e mantendo o local limpo para eles, eu faço. Mas não posso ficar dando banho em todos os animais”, diz.

Segundo ele, os cachorros chegam ao canil em estado debilitado, muito magros e doentes, por isso inspiram cuidados maiores e o tratamento para a recuperação é demorado. “O nosso veterinário, Júlio Terra Dias, faz a castração dos animais e dá a medicação. Começamos o tratamento para engordá-los, disponibilizando ração mais vezes ao dia, para que eles possam recuperar o peso e ficar sadios”, conta.

O horário de atendimento do canil é de segunda a sábado. Quanto a domingos e feriados, Sidnei frisa que precisa dar folga ao funcionário e por isso não é realizado atendimento externo.

NOVA INFRAESTRUTURA
Atualmente, o Rancho está construindo uma nova infraestrutura para abrigar os animais. “Chamamos de quarentena. Será um espaço para abrigar os animais que chegam das ruas para o canil. Eles passarão por tratamento com o veterinário e receberão alimentação diferenciada para que fiquem saudáveis”, diz. Os animais que já estiverem recuperados, segundo o proprietário, serão destinados a outra parte da estrutura do canil e ficarão disponíveis para adoção.

Fotos vinculadas

Mônica Krewer (Foto: Arquivo pessoal) Canil conta hoje com 170 animais. Capacidade é de 200 cachorros (Foto: Talita Mazzola/JM)

Por Talita Mazzola (talita@jornaldasmissoes.com.br)

Fonte: Jornal das Missões

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