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Novo acordo ortográfico passa a ser obrigatório

Professora Dinalva Agissé Alves de Souza, dá seu parecer sobre as novas regras de escrita no Brasil

07 de Janeiro de 2016 às 08:00
Novo acordo ortográfico passa a ser obrigatório
Entre as mudanças, o acento agudo foi eliminado nos ditongos abertos “ei” e “oi” (antes “éi” e “ói”)

As regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa passaram a ser obrigatórias no Brasil a partir do dia 1º de janeiro. Em uso desde 2009, mudanças como o fim do trema e novas regras para o uso do hífen e de acentos diferenciais agora são oficiais com a entrada em vigor do acordo, adiada por três anos pelo governo brasileiro.

Conforme a professora de Linguística e de Língua Portuguesa da URI Campus Santo Ângelo e Mestre em Letras – Linguística Aplicada, pela PUCRS, Dinalva Agissé Alves de Souza, “o objetivo do novo Acordo Ortográfico é a unificação gráfica da Língua Portuguesa, que ocupa lugar de destaque entre as dez línguas mais faladas do mundo. Ao todo são oito países que têm o português como língua oficial, além de outras localidades e comunidades linguísticas, o que representa em torno de 240 milhões de falantes desse idioma”.

Com a padronização da língua, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pretende facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa, já que os livros passam a ser publicados sob as novas regras, sem diferenças de vocabulários entre os países. De acordo com o Ministério da Educação, o acordo alterou 0,8% dos vocábulos da língua portuguesa no Brasil e 1,3% em Portugal.

UNIFICAÇÃO
Porém, o Acordo Ortográfico gera debates a respeito de sua implementação. Para Dinalva, a unificação da escrita jamais será capaz de unificar a língua, destacando que ambos são fenômenos diferentes, “em se tratando de língua, primeiramente deve-se ter a clareza da diferença entre fala e escrita. Há um grande equívoco por parte da maioria das pessoas ao tratarem esses dois fenômenos como se um fosse sinônimo do outro. Então, ao se pensar nesse acordo, deve-se voltar a atenção para a escrita, pois é sobre a grafia que se assenta essa proposta. E é justamente por essa questão que desde o início julguei infundada e desnecessária essa proposta. A unificação da escrita jamais vai ser capaz de unificar a língua, já que o português falado no Brasil não é o mesmo português europeu, que também não é o mesmo falado em Príncipe ou em Moçambique, por exemplo”.

A professora explica que a língua se constitui, em sua essência, pela fala. E, por isso, ela é viva, é dinâmica, é diversificada, é maleável, sempre sujeita a mudanças. A escrita, por sua vez, se assenta na origem etimológica das palavras e numa estrutura morfossintática, fator que justifica sua diferença da fala.

“Em vista disso, considerando os aspectos que foram contemplados no novo acordo, vimos que ele é insuficiente para a unificação da escrita, já que escrever não é apenas uma questão de ortografia, mas depende, principalmente, de toda uma organização sintática, a qual dispõe as palavras na frase de acordo com as especificidades e particularidades de cada língua. Particularmente, sempre me coloquei contra esse acordo. Não é a retirada de alguns acentos ou a troca de hífen de uma para outra palavra, por exemplo, que vai unificar a escrita da língua. O novo acordo, do meu ponto de vista, apenas desestabilizou o que estava instituído, trazendo um severo dano à normatização da escrita do português brasileiro. Em termos de acervo, deve ser levado em conta também o aspecto econômico. Pela dimensão física do país, podemos imaginar a quantidade de livros e obras que estarão defasadas em termos de escrita, restando, portanto, desatualizadas e consequentemente fora de uso”, afirma.

ATENÇÃO PARA AS NOVAS REGRAS
Apesar de não concordar com a implementação da nova ortografia, a professora de Língua Portuguesa e de Linguística ressalta a importância da atenção por parte dos alunos para as novas regras,  “é claro que todos nós, independentemente de nossa opinião, teremos de nos adaptar e nos ajustar à nova ortografia, até porque esse acordo veio de forma arbitrária, sem que nos perguntassem se concordávamos ou não com ele. Tenho, portanto, como professora de Língua Portuguesa e de Linguística, a obrigação de exigir por parte dos alunos a atenção a essas novas regras, já que escrever é um ato que exige formalidade e padronização e, sobretudo, a observância das regras que regem a escrita”.

A profissional ainda ressalta a riqueza da língua brasileira, explicando que a essência da língua é justamente o fato de que ela não pode ser unificada. A língua portuguesa do Brasil, como idioma de milhões de brasileiros, é expressivamente rica para ser reduzida a uma mera normatização de emprego de hífen ou acentuação gráfica. E o bom da língua é justamente o fato de que ela não pode ser unificada. Mas, como nada podemos fazer para voltar às regras anteriores, o melhor é nos adaptarmos ao novo acordo, desde que tenhamos a certeza de que ao mesmo tempo em que devemos padronizar a escrita, devemos exaltar a nossa língua por sua variação e diversidade linguística”, finaliza.

O QUE MUDOU
Entre as principais mudanças, está a ampliação do alfabeto oficial para 26 letras, com o acréscimo do k, w e y. As letras já são usadas em várias palavras do idioma, como nomes indígenas e abreviações de medidas, mas estavam fora do vocábulo oficial.

O trema - dois pontos sobre a vogal u - foi eliminado, e pode ser usado apenas em nomes próprios. No entanto, a mudança vale apenas para a escrita, e palavras como linguiça, cinquenta e tranquilo continuam com a mesma pronúncia.

Os acentos diferenciais também deixaram de existir, de acordo com as novas regras, eliminando a diferença gráfica entre pára (do verbo parar) e para (preposição), por exemplo. Há exceções como as palavras pôr (verbo) e por (preposição) e pode (presente do indicativo do verbo poder) e pôde (pretérito do indicativo do verbo poder), que tiveram os acentos diferenciais mantidos.

O acento circunflexo foi retirado de palavras terminadas em “êem”, como nas formas verbais leem, creem, veem e em substantivos como enjoo e voo. Já o acento agudo foi eliminado nos ditongos abertos “ei” e “oi” (antes “éi” e “ói”), dando nova grafia a palavras como colmeia e  jiboia.

O hífen deixou de ser usado em dois casos: quando a segunda parte da palavra começar com s ou r (contra-regra passou a ser contrarregra), com exceção de quando o prefixo terminar em r (super-resistente), e quando a primeira parte da palavra termina com vogal e a segunda parte começa com vogal (auto-estrada passou a ser autoestrada).

Fotos vinculadas

Professora de Linguística e de Língua Portuguesa, Dinalva Agissé Alves de Souza (Foto: Arquivo/JM)

Fonte: Jornal das Missões

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