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‘Não me sentiria em paz se nada fizesse para evitar que outras famílias passem por isso’

Após três anos do caso Kiss, JM entrevista Jorge Malheiros, presidente do Núcleo Missões

26 de Janeiro de 2016 às 10:40
‘Não me sentiria em paz se nada fizesse para evitar que outras famílias passem por isso’
Jorge Malheiros, pai de vítima e presidente do Núcleo Missões

Após três anos, pai de uma das vítimas do incêndio na boate Kiss e presidente do Núcleo Missões VST-Ijuí/RS, Jorge Malheiros, fala sobre as lutas da entidade, além de pedir ajuda de toda a sociedade para exigir do Poder Público que os culpados pela tragédia não saiam impunes

Jornal das Missões: Quais as lutas do Núcleo Missões?
Jorge Malheiros:
As lutas do Núcleo Missões VST - Ijuí/RS se deram em três frentes bem distintas. No começo, buscamos nos ajudar mutuamente, nos auxiliando e nos confortando naquele momento extremamente difícil pelo qual passamos e do qual ainda tentamos nos recuperar. Depois, compreendemos que estando distantes do dia a dia de Santa Maria, era necessário nos organizar aqui e buscar entender o que aconteceu e por que aconteceu, além de questionar quais as irresponsabilidades que haviam neste caso que vitimou os nossos filhos.
Então, acompanhamos o inquérito da Polícia, seus desdobramentos e o processo que o Ministério Público de Santa Maria apresentou à Justiça. Logo percebemos que haviam muitas distorções e se criou um litígio entre Polícia Civil e MP, pois os dados de responsabilidades do Poder Público de Santa Maria foram desconstruídos pelo MP no processo, com alegações que não nos convenceram, parecendo mais um corporativismo por parte do MP Santa Maria na tentativa de retirar responsabilidades inerentes ao MP e ao Poder Público de Santa Maria e do Estado.
Com isso, fizemos um Seminário sobre o caso Kiss, onde recebemos 12 autoridades no assunto para debater do ponto de vista da segurança, além do psicológico e criminal, dos desdobramentos às responsabilizações, e isso gerou mais de 13 horas de debate, o que foi filmado e documentado, sendo entregue ao MP Santa Maria. Isto nos fortaleceu no entendimento de que responsabilidade do Poder Publico de Santa Maria e do MP precisam ser melhor esclarecidas e não ocultadas para o bem do Sistema Jurídico e para garantia do Cidadão que não acredita mais nos Poderes públicos. Percebemos que nossas legislações são muitas, mas são fracas no ponto de vista das responsabilizações do ente Público, fracas no sentido da prevenção, estimulam a arrecadação do Estado e punem muito pouco.

JM: Após três anos da tragédia na boate Kiss, pouco ouviu-se falar em punição. Você acredita em justiça?
Jorge Malheiros:
O Poder Público deste País é o maior descumpridor das Leis e isto só acontece porque eles têm certeza da impunidade. A sociedade precisa entender que só os apontamentos das verdades do caso Kiss pode provocar mudanças fortes neste sentido. É preciso parar de olhar para estas famílias com pena e começar a vê-los com respeito daqueles que estão dignamente defendendo a memória de seus filhos, tirando da dor lições que possam ajudar nosso semelhante na construção de uma sociedade mais justa. Após três anos do caso Kiss, absolutamente nada foi feito em termos de apontamento de responsabilidades, ninguém foi preso. Alguns poucos julgamentos de bombeiros no âmbito militar, com decisões bastante contestáveis.
O momento mais importante desse processo parece ser agora. O Poder Judiciário, após longos e intermináveis depoimentos de testemunhas e réus, terá que se pronunciar sobre o processo. Nenhuma democracia sustenta os direitos do cidadão se estes não forem respeitados e nossos filhos, que são cidadãos, forem assassinados cruelmente por irresponsáveis, negligentes e gananciosos. Isso não pode ficar impune.

JM: Como a união entre os pais, parentes e amigos das vítimas da boate Kiss ajuda na recuperação de quem ficou?
Jorge Malheiros:
A maior ajuda que podemos dar aos sobreviventes, pais, amigos e familiares das vítimas da Kiss é lutar e denunciar os desmandos que envolvem este caso. Desde o primeiro dia eu jurei à minha filha que não deixaria de lutar um dia sequer de minha para que a verdade viesse à tuna de tudo que envolve a tragédia. Só quem esteve lá dentro e viu o que nós vimos e vivemos, tem condições de entender a monstruosidade do que foi feito lá. Só quem acompanha essas famílias e sobreviventes sabe a dor e o sofrimento que restou em consequência das irresponsabilidades cometidas aquela noite. Criou-se um circo em torno de Santa Maria como se todas as vítimas, sobreviventes e familiares fossem de lá ou estivessem lá. Mas 164 delas estão espalhadas por todo o Estado ou País. Será que estas pessoas recebem atendimento devido?

JM: Atuar pela justiça é uma forma de amenizar um pouco da dor que ficou?
Jorge Malheiros:
Lutar por justiça com dignidade e ética é um exemplo de amor ao próximo, ao nosso semelhante. Eu perdi minha filha e sei o que isto significa. Não me sentiria em paz se nada fizesse para evitar que outras famílias passem por isto.

JM: Você acredita que ao menos os municípios do Estado e do País começaram a tomar as medidas necessárias em estabelecimentos comerciais após o ocorrido?
Jorge Malheiros:
Acho que as pessoas ficaram mais atentas em função do ocorrido, mas houve um circo em cima da cobrança de uma lei que já existia desde 1997, precária, mas que se tivesse sido respeitada, teria evitado a tragédia. Gostaríamos de saber quanto o Estado arrecadou nestes três anos. A Lei da Kiss pouco contribui, pois já sofreu sérias mutilações logo que promulgada. O Poder Público é o maior descumpridor da lei, e o pior, a manipula de acordo com seus interesses mesquinhos e eleitoreiros em detrimento da sociedade. A lei previa dois anos para que os bombeiros se tornassem uma autarquia independente da BM. O que temos hoje? Acho que as autoridades não aprenderam nada, continuam negligenciando suas funções e seus deveres com a sociedade, colocando em risco o bem maior que temos: a vida.

Fonte: Jornal das Missões

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