A alma missioneira

0
273

Neste sábado, completo a centésima coluna desde que comecei a escrever regularmente no Jornal das Missões. É um prazer enorme dialogar com o povo missioneiro. Todas as semanas, contemplo atentamente o cotidiano gaúcho, a política nacional, os problemas sociais e o sistema de justiça. Aguardo a inspiração chegar para transcrevê-la em palavras que carregam a miopia deste observador da vida.

Cada letra escrita é um passeio de menino pelas praças e ruas santo-angelenses. O fonema é um simbólico grito de gol nas arquibancadas do estádio Raul Oliveira. O parágrafo é um chute de trivela nos campos de várzea na zona norte. Na frente da tela do computador, me sinto um guri no curso de datilografia da rua Antunes Ribas; e como adorava a sinfonia produzida pelas teclas da Olivetti.

As frases têm um pouco das amizades herdadas nos bancos escolares, no NPOR de Comunicações e na graduação em Ciências Jurídicas. Os pontos e as vírgulas discretamente contam as madrugadas de patrulhamento como capitão da BM nas fileiras do 7º RPMon. Quando escrevo algo aparentemente distante de Santo Ângelo, nas entrelinhas, lá estão os valores outrora semeados no barro vermelho.

As desigualdades sociais que enxergo no mundo derivam das primeiras histórias que ouvi sobre Sepé Tiaraju. E o que dizer do cantor Cenair Maicá? Uma vez por semana, no mínimo, escuto as revolucionárias melodias do saudoso poeta da liberdade. ‘Dois Missioneiros’, música que emocionou o teatro Antônio Sepp no 3º Canto Missioneiro, sempre traz a força necessária para lidar com os desafios de defensor público perante a justiça criminal.

A vida foi seguindo seu tortuoso caminho, andei pelas fronteiras, abracei ternamente o povo da região central, descobri as inquietudes da paternidade nos olhares das pequenas Luiza e Valentina. O vento minuano – como se conduzisse um barco à deriva pelo rio da existência – levou-me para a cinzenta Porto Alegre. O tempo foi escrevendo rugas, aprendi muito com a saudade, palavrinha que penaliza o peito.

Rogo licença para deixar de lado as incertezas da pandemia, as crises de vários matizes, no alvorecer desta manhã outonal, preciso anotar algumas linhas sobre o imenso orgulho que tenho da minha alma missioneira; é ela que tem me auxiliado a compor os sonetos das minhas andanças. E cada vez que o humilde pensamento ganha a forma de letras nesta coluna, é como se eu matasse a sede num gole d’água às margens do Itaquarinchim.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here