A cobra cruzeira

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Ela acariciava a mão de Constância. Os tremores e os delírios afastavam a existência materna no rude galpão. A pequena, que recém dizia “mama”, nada sabia sobre a morte. O cusco fazia as vezes de pai na ausência do domador, atentamente, vigiava a pequena para que não se aproximasse do braseiro.

O bicho tinha um olhar entristecido, sabia o significado da perda, quando mal começou a saltitar pelas coxilhas, divertindo-se com as flores do campo, foi desmamado e levado pra ser cachorro noutra estância. A pequena seguiu acariciando a mãe. Cessaram os tremores.

A cobra cruzeira jazia debaixo da bergamoteira. A peçonhenta, num bote certeiro, picou Constância. Numa ligeira e assustadora refrega, o cusco fez o passamento da cobra enquanto as toxinas percorriam a corrente sanguínea da vítima. Prendeu a cobra entre os dentes e, enraivecido, esmagou a cabeça da serpente.

Constância deitou-se na cama, deixando a menina ao lado. O cachorro foi-se ao campo atrás do domador, ainda sentia o gosto da facínora na boca. Num capão de mato, farejou no vento os rastros do peão, atravessou o banhado quase sem vida na estiagem, encontrando Anastácio montado na tordilha.

Latiu meneando a cabeça e balançando a cauda, o suficiente para chamar a atenção da égua. “Que foi Baio?” O domador cutucou a tordilha com as esporas, afrouxou as rédeas e partiu num galope ligeiro. O peito era um inventário de sentimentos ruins.

Apeou da tordilha na sombra da bergamoteira. Mexeu na cruzeira com o bico da bota. Estranhou o silêncio galponeiro. “Papa”, disse a filha, arregalando os olhos negros. Acostumado a carnear bois, porcos e galinhas, Anastácio era doutor em reconhecer a morte. O braseiro apagou-se lentamente.

O destemido domador, tropeiro das tormentas, amansador de ânsias, não sabia desencilhar tamanho desalento. O cusco observava aquele quadro pintado de lástimas. Os dedos rudes do negro percorreram a delicada pele da filha. Era o jeito emudecido de dizer que o amor haveria de vencer a morte.

O humilde cortejo seguiu até o Cerro dos Ausentes, local escolhido para o sepulcro. A pequena e o domador Anastácio, cada um na sua singularidade, despediram-se de Constância. “Mama” e silêncio enquanto o caixão feito de ripas tortas era pregado. O cusco apenas olhava o estranho ato que resumia a finitude dos humanos.

 

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