A fluidez do mal

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Em Capesius, O Farmacêutico de Auschwitz, Dieter Schlesak obriga o leitor a deixar o livro de lado por alguns instantes para superar a tontura. Num triste capítulo, dedica-se a descrever os chamados muselmänner, seres humanos – mortos-vivos – submetidos a um experimento biopolítico de fome crônica que reduzia as funções vitais ao nível mínimo antes da incineração.

A obra permite novamente uma reflexão sobre o que a filósofa Hanna Arendt categorizou como a banalidade do mal, o conhecido “cidadão de bem” que se apropria de um poder circulante para o cometimento de atrocidades. É a fluidez do mal. Em determinados momentos, as condições necessárias ao exercício de terríveis condutas encontram-se disponíveis ao indivíduo aparentemente pacato, honesto e trabalhador.

Dois episódios para refletirmos sobre a atualidade da fluidez do mal. No whatsapp, um jovem agoniza ao lado de outro menino desfalecido, a imagem demonstra a presença de uma motocicleta envolvida num acidente de trânsito. Os diálogos indicam que os rapazes eram comparsas num malsucedido roubo. O suspeito é golpeado brutalmente com um tijolo por um dos curiosos que esconde o rosto.

O google indica que o assassinato do menino ocorreu em Manaus. O linchamento é uma oportunidade para que os não-ban(d)idos produzam um soberano julgamento sobre a vida e a morte em frações de segundos. É o mal liquefeito a deslizar discretamente pelas fissuras da estrutura social. As condições foram reunidas para que a desumanidade fosse disseminada sem possibilidade de retorno à razão.

No Lami, bairro do extremo sul de Porto Alegre, talvez simbolicamente entorpecido pelo discurso de ódio que instiga a violenta resolução de conflitos do cotidiano, um menino, ex-militar, pessoa não estigmatizada como ban(d)ido, dilacera uma família inteira ao matar três pessoas num corriqueiro acidente de trânsito. Regozija-se o mal com a morte e a privação de liberdade.

O mal circula. Encontra-se latente aguardando a oportunidade para manifestar-se tanto na cegueira coletiva que descerra caminhos para o genocídio como na discussão do semáforo. O Estado, portanto, deve impedir a reunião das condições adequadas à operação das engrenagens do mal. Uma honesta discussão sobre a flexibilização do acesso às armas de fogo e o esclarecimento de que a punição penal depende do devido processo legal é um bom começo a evitar tempos ainda mais obscuros.

 

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