A jaula de aço

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A expressão ‘jaula de aço’ é utilizada por Max Weber para descrever o aprisionamento feito por um sistema que nós mesmos inventamos. Embora originada em escritos do início do séc. XX, referindo-se ao capitalismo, é de fácil adaptação no presente momento da história.

Nos últimos dias, circulou pelas redes mais ou menos sociais o vídeo de um procurador paraibano dormindo durante a sessão no Tribunal de Justiça da Paraíba. A sentença prolatada pelos odiadores plantonistas foi inevitável.

O leitor deve imaginar os impropérios originados no distanciamento social do mundo virtual. A cena logo virou um zombeteiro sticker (adesivo) para WhatsApp. Nos comentários, ninguém questionava a saúde daquele senhor que se encontrava na quarta década de serviço público.

Nenhuma preocupação se o invencível sono estava relacionado ao uso de medicamentos. Também não houve uma única frase demonstrando a possibilidade de uma noite mal dormida, fruto da efervescência dos nossos dias. Aquele senhor de bigode grisalho, sujeito estranho para o tempo das sessões virtuais, era um preguiçoso servidor público para os donos da verdade.

Os julgamentos das redes geralmente são trágicos. A dinâmica das decisões virtuais não oferta o direito ao contraditório tampouco o exercício da defesa. É apenas um tsunami de incompreensão e cólera coletiva.

Uma das lições que a vida de defensor público tem me oportunizado é a troca do julgar pelo compreender. E assim tenho feito nos casos penais mais complexos. É como desenvolvo meu trabalho no tribunal do júri, contando histórias que começam no ventre materno…singelas linhas à compreensão.

As pessoas vagarosamente começam a perceber os malefícios de habitar plataformas onde inexistem filtros para o controle do ódio. Na campanha, Stop Hate for Profit (Pare o Ódio por Lucro), empresas mais conscientes do seu papel econômico-social deixaram de veicular anúncios publicitários no Facebook por considerarem a empresa incapaz de lidar com conteúdos de ódio.

O espaço das ‘curtidas’ e dos amigos fictícios é um terreno perigoso. O erro filmado, a palavra gravada e a imagem captada podem desproporcionalmente demolir uma família inteira, estabelecendo obstáculos à socialização real em todas as faixas etárias. Precisamos resgatar a empatia e a solidariedade, antes de julgar ou compartilhar, colocar-se no lugar do outro é um bom recurso para desconstruirmos a jaula virtual edificada por todos nós.

 

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