A triste vida de um não poeta

0
209

O Anastácio andava atormentado desde a partida da morena batizada de Constância. Não disse uma única palavra na despedida. Tentou escrever alguns versos. Consertou apressado o letreiro que havia tombado no derradeiro temporal. Decidiu-se. Encilhou o mouro na ‘Estância dos Desamores’, n’alma inquieta, carregou as desconfianças e os anseios, olhava distante a bravura da sanga, as flores secas e a própria existência. Sorveu o último gole do amargo madrugueiro.

A lua esperançosa alumiava o banhado desalmado. Ele pensou em rabiscar com as lágrimas o barro vermelho, fazer brotar nas rachaduras da superfície alguns versos coloridos naquela miséria de sentimentos. O bicho de nome Saudade, conhecedor dos desassossegos pelos rigores do braço, sentia-se faceiro com a resolução do negro. Rogou um novo bem-querer para o céu estrelado. – Adios, adios mi campo viejo de soledad! Na porteira, soltou as rédeas no rumo do braseiro em prelúdio.

Logo cedo, o negro e o cavalo chegaram na coxilha ‘Das Ausências’. O peito alvoroçava-se diante da bela paisagem entalhada no balouçar das nuvens. O mouro pastava enquanto o domador acariciava a crina desajeitada pela ventania. O sonho dos afetos infinitos noutras querências. Galopava-lhe o coração quando pensava nela. Pouco sabia sobre o amor; era doutor, porém, em desatinos. O luto ainda era amargo nas profundezas do peito.

Era pouca a estrada para desencilhar. Amar a negritude desconhecida do olhar feiticeiro da morena. Os lábios açucarados para uma paixão eterna. O sorriso enluarado. Refrescou-se no açude que refletia a imensidão da planura meridional. Pensou em escrever um poema para declamar ao horizonte. Os dedos eram sábios tão somente na doma dos aporreados. Soltou as rédeas para um trote bem ligeiro. O mouro Saudade, meio aflito, seguiu num galope infinito.

– Sí, ahora yo tengo flores, mi hermosa! O domador, em terno silêncio, refletiu ao espreitar a delicadeza dos poemas que a vida escrevia numa melodiosa história na ‘Estância dos Amores’; não havia rasuras na amplidão celeste. O mouro percebeu a felicidade do negro. Os dedos estremeceram-se quando apanhou o lápis carcomido na mala de garupa para compor uma milonga ao vento. Não escreveu o prometido verso. As mãos castigadas sabiam apenas das tranças no rude couro.

Ela ansiosamente esperou as palavras prometidas. Ele disse sobre as andanças tantas para encontrá-la. O Saudade testemunhava a ignorância dos dedos. A alma tão poeta; mas os dedos eram traiçoeiros. Mateou feliz ao perceber uma nova manhã depois de tantas tropeadas. Era primavera. Talvez uma escrita em rima pobre. Anotou detidamente no singelo bilhete: ‘é triste a vida de um não poeta’. Tocaram-se os lábios sob a sombra da pitangueira; era um soneto de amor no indomável sonho do Anastácio.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here