Aprisionado pelos traumas

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Nos conhecemos alguns minutos antes do tribunal do júri, o que não é salutar à defesa, aumenta-se o risco de o defensor não conhecer uma parte da história. O réu, que não tinha envolvimento criminal, era acusado de matar o próprio pai. Três disparos num dramático caso de violência intrafamiliar.

O acusado tinha o apelido de “Gordo”. A dimensão da alcunha alterava-se a partir do relato materno sobre as humilhações sofridas pelo réu. O ex-marido, frequentemente, depreciava a compleição física do filho, desprezo que certamente contribuiu para o quadro de obesidade mórbida do menino. Na entrevista reservada, disse a ele que a prova não amparava a versão de tiro acidental. A verdade era o melhor caminho. E o coração seria o construtor de uma boa tese defensiva.

No interrogatório, para o desespero da defesa técnica, o entristecido menino contou a mesma versão das fases pretéritas (acidente). A acusação tinha um prato cheio: a mentira; utilizou-a. Escutei silenciosamente a acusação. Sem apartes. Estava a compreender a relação do caso penal com os padrões estéticos exigidos pela sociedade de consumo.

Como tudo aquilo havia repercutido na (des)construção da autoestima, causando intenso sofrimento emocional no filho desprovido de amor paterno. Anos mais tarde, o réu encontrou um grande amor, tornando-se pai de uma linda menina. Os desentendimentos com o genitor, no entanto, seguiram-se pela vida adulta.

Na trágica noite, o ébrio pai foi até a residência do filho. “Tu precisas de um homem de verdade, não daquele gordo…”, disse à nora. Na volta do trabalho, a menina contou ao pai que a mãe havia chorado durante a inoportuna visita do avô. Sentou-se solitariamente no quarto. Decidiu ir até a casa do pai. Toc-toc-toc! Estampidos! Escutou-se o estrépito do corpo no chão de madeira para o desespero da companheira do velho.

Nos debates, a defesa não discordou da narrativa apresentada pela acusação. A versão do acidente não era verdadeira. Todavia, negar um fato nem sempre é uma mentira, há casos em que as feridas d’alma são simplesmente encobertas. Quantos traumas o ser humano não consegue verbalizar?

Desse modo, dizer “eu matei o meu pai” no estranho ambiente do júri é algo muito complexo. É uma discussão que transcende o campo jurídico, a justiça, portanto, não estava nas leis penais, encontrava-se na compreensão da relação existente entre pai e filho. Percebendo que o réu era cativo dos seus traumas, os jurados decidiram pela absolvição.

 

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