Lágrimas

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Sentia-se distante da alma. A dor singrava os sulcos esculpidos pela miséria. Um mar de solidão no campo gateado; evaporavam-se as lágrimas em silenciosa batalha. O coração gélido e a elevada temperatura formavam um profundo paradoxo. O suor – num gotejo incessante – furtava-lhe as últimas forças. A cada passo, feito o horizonte, ela ficava ainda mais distante do sonho menino.

Havia um perfeito matiz funéreo no céu. Em temor ao forte sol, as poucas nuvens escondiam-se num balouçar despercebido. Um vaticínio planava na imensidão celeste. Aguardava o momento da partida. Sem compreender muito bem, talvez o menino já estivesse atrasado para ir embora deste mundo de indignidades. Uma pequena sombra de asas acompanhava os pés descalços da perseverante caminhante.

O chão era duro e recortado; os torrões há muito não se amalgamavam com a doce chuva. O cenário era triste. O ar morno e imóvel permitia escutar o trôpego compasso do corpo combalido. Os seios desvelavam a história da maternidade escrita em dez partos. Aquela mulher havia suportado tantas vezes a dor da partida. Agora, incansavelmente, lutava contra a morte. A destemida indígena caminhava abraçadinha em ossos, carne e alma em despedida.

Década depois, ela entrou na sala portando um papel amassado. O defensor notou que ela estava envergonhada até para acomodar-se na cadeira. Em rápida leitura, lá constava um aditamento à denúncia: homicídio doloso. Não era mais a negligência; mas o dolo. Ela desejava a morte do filho? Há séculos, entretanto, somos partícipes deste violento conflito pluriétnico que fez tombar Sepé na sangrenta batalha do Caiboaté.

No dia da audiência, outro instante de incompreensão dos costumes de além-mar, se houve o perdão na aldeia, o que aconteceria ali? A expiação do nosso horror à alteridade? Em lastimosas páginas do processo, um menino desalmado estampava o laudo pericial. A pele enrugada do corpo subnutrido era a efígie do fracasso humano. Julgaríamos a nossa própria indignidade enquanto sociedade. A mulher indígena no banco dos réus.

A brisa inconstante trouxe um sentimento de esperança. As provas do malogro social brasileiro, paulatinamente, consolidaram-se nos autos. Ela havia caminhado uma dezena de quilômetros para salvar o bebê de nove meses; porém havia a intenção de matar. Como? Encaminhava-se o caso para o estrépito do júri. A defesa ultimou: o que tu sentes? As lágrimas, vagarosamente, brotaram. Ela recordou dos últimos carinhos no menino desmaiado. Era o derradeiro ato de mãe. Em materna penitência, respondeu:

– Saudade…

A sensibilidade predominou na sala. Todos ficaram desconfortados em seus jurídicos assentos. Absolveu-se sumariamente aquele errante destino. A maior de todas as provas era a nostalgia que dilacerava o coração daqueles ainda capazes de enxergar as contradições sociais. As lágrimas em peroração serviram de memoriais. A sociedade segue livre das suas dívidas históricas num palmilhar de injustiça.

 

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