Não consigo respirar

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Na última segunda-feira (25/05), em Minneapolis (EUA), a polícia matou George Floyd, 40 anos. As fortes imagens que circulam pelos jornais do mundo inteiro apresentam um ‘agente da lei’ ajoelhado sobre o pescoço do homem negro. Floyd suplicava pela vida – “não consigo respirar”. A agonia era placidamente acompanhada por outros policiais que ignoravam o derradeiro pedido: “não me mate”. Foi assassinado, porém.

Poucos dias antes (18/05), em operação da polícia carioca, o menino João Pedro, 14 anos, foi morto com um tiro de fuzil na barriga. Os policiais alegaram que criminosos fugiam pelo pátio da família. Se o leitor compreende a ação policial como sensata, imagine-se na poltrona de casa enquanto os agentes do Estado disparam setenta vezes os fuzis de calibre 5.56mm, deixando buracos de bala nas paredes e sangue no chão. A morte do menino negro é uma estupidez estatal.

Em setembro de 2019, a polícia militar carioca matou a menina Ágatha Félix, 8 anos. Segundo a denúncia, o ‘agente da lei’ atirou em duas pessoas que se encontravam numa motocicleta em fuga; não houve confronto. O projétil perfurou a lataria da Kombi e encontrou a pele da criança. O Estado matou os sonhos da pequena bailarina negra.

Em Marau, no mês de abril deste ano, um engenheiro negro foi morto durante intervenção policial. “Eu estava de joelhos e pedi para o policial não atirar”, relatou o colega de trabalho à emissora de televisão. Em Gravataí, no dia 17 de maio, um negro foi alvejado em ação de policiais militares, o rapaz estava sendo conduzido num veículo de aplicativo. O jovem angolano não estava armado, segundo as informações do delegado responsável pelo caso.

Estima-se que 60% dos negros perdiam a vida durante a travessia do Atlântico no período escravocrata; milhões, portanto. O genocídio do povo negro seguiu no período republicano; miséria, violência e morte sempre fizeram parte do cotidiano da população negra. A democracia racial nunca passou de ideologia a evitar os conflitos étnicos derivados do período escravocrata, dissimulando a violenta expulsão do negro da classe trabalhadora e preservando o status quo.

O conceito jurídico de suspeição que fundamenta as abordagens policiais tem na sua composição o racismo, origina-se no projeto de medo, repressão e controle social do negro egresso do cativeiro no Brasil imperial. O negro integrante da cena urbana era um perigoso negro fora do seu lugar. A moderna suspeição racializada independe da vontade individual dos agentes públicos, faz parte da histórica estrutura do Estado. Urge um diálogo racional entre a sociedade e as forças policiais à compreensão desses fatos sociais. Não podemos seguir respirando o ar racista que circula no continente americano.

 

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