O castigo público de Beto

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O Avesso da Pele, livro de Jéferson Tenório, é um romance muito interessante à compreensão das relações raciais no Brasil. Com peculiar intensidade, o autor apresenta ao leitor os racismos que habitam a sociedade brasileira.

A indicação do livro relaciona-se ao recente episódio ocorrido em Porto Alegre, quando um homem negro foi brutalmente espancado por seguranças de um hipermercado. As cenas de violência foram noticiadas pelos principais jornais do mundo e promoveram um necessário debate sobre discriminação racial.

Entender a morte de João Alberto exige uma reflexão historicamente contextualizada. Nesse aspecto, o ‘controle territorial do corpo negro’ é o esquema-chave para entender as agressões num ambiente de compra e venda de mercadorias.

No período escravocrata, os corpos negros eram submetidos à economia política do castigo – “sustentá-los para que não perecessem e castigá-los para que produzissem” (Silvia H. Lara). Era o castigo corporal reproduzindo as relações de produção e o corpo como alicerce da economia colonial.

No período republicano, como não era mais possível agrilhoar o negro à unidade produtiva da escravidão, houve a construção da teoria da suspeição generalizada, “todos são suspeitos”, diziam as autoridades policiais em relação aos negros que circulavam nas ruas do Rio de Janeiro.

A mort à la carrefour, lamentavelmente, trata-se de repugnante reciclagem das violentas práticas de controle, suspeição e castigo dos corpos negros no âmbito da segurança patrimonial.

O negro não reconhecido como consumidor é controlado pelas câmeras de vigilância e sente na pele os olhares dos seguranças que delimitam os espaços possíveis para homens e mulheres negras nos corredores de lojas, shopping centers e hipermercados.

Os efeitos mais violentos do regime escravocrata, em regra, são percebidos no sistema de justiça criminal, afinal, envolvem os processos de criminalização e encarceramento da população negra. Não obstante, o caso de Porto Alegre demonstra a perversa capilaridade do racismo (poder de hierarquizar, qualificar e eliminar raças), que alcança o campo das relações de consumo.

A morte de João Alberto é o somatório dos racismos individual, institucional e estrutural. Um homem branco não seria tratado daquela forma, a brutalidade da violência a que foi ostensivamente submetido bem indica uma autorização vigente há séculos quanto ao castigo público de corpos negros. A conclusão de que a morte de João Alberto tem o predicado da violência racial é fundamental para seguirmos o rumo da igualdade.

 

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