O curso de datilografia

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Ela chegou num caixote de madeira. As alças eram de couro. As crianças ficaram alvoroçadas com aquela coisa estranha sobre a mesa. Era uma antiga máquina de escrever; divertiram-se com o engenhoso mecanismo da Olivetti.

A minha geração foi a última a realizar o curso de datilografia. Lembro do imenso prazer em teclar aceleradamente j a n e i r o. A futura vida profissional exigia um bom datilógrafo – postura, dedos ligeiros e vigilante olhar na folha branca.

Tudo mudou numa acentuada curva da história. Os computadores chegaram para substituir as centenárias máquinas de escrever. A mudança aparentemente trouxe benefícios para todas as áreas do conhecimento.

O ser humano não era capaz de processar o imenso volume de dados na velocidade da nova máquina. O duelo entre o enxadrista Kasparov e o computador IBM Deep Blue era coisa do passado.

E depois chegaram os smartphones, telefones inteligentes que hoje nos permitem pagar contas, realizar transferências bancárias, encomendar refeições, solicitar transporte, participar de reuniões virtuais e fazer parte das famosas redes sociais.

Fomos testemunhas da gigante monetização da informação produzida pelas empresas como Google e Facebook. Sob os princípios do volume, veracidade, variedade, velocidade e valor, as big techs entraram sem pedir licença em nossos lares.

É nesse ponto que recomendo o documentário O Dilema das Redes, precisamos entender como essas empresas estão moldando consumidores, trabalhadores, jovens, eleitores, causando rebeliões e riscos à democracia.

Se é verdade que o mundo dos nossos filhos não é mais aquele da cadenciada batida de teclas, mas do dedinho na tela do telefone, parece fundamental que tenhamos a correta dimensão dos efeitos causados pelo mercado da informação no comportamento das nossas crianças e adolescentes.

Uma despretensiosa conta no Instagram pode ser o caminho sem volta para uma vida de ansiedade provocada por curtidas e seguidores. O referido documentário, nesse aspecto, é realmente assustador, somos potenciais mercadorias controladas por algoritmos.

Encontrar o equilíbrio no ambiente tecnológico não é uma tarefa muito fácil. Banir das nossas vidas as ferramentas digitais talvez não seja a melhor saída. No entanto, o universo virtual não é a única realidade possível, o mundo lá fora ainda existe, está logo ali, datilografado em maiúscula F E L I C I D A D E.

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