O luar é para todos

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O alvoroço das pessoas indicava o caminho para o rio Meirim. Um discreto vozear: – A lua. A lua! Debruçadas no parapeito da modesta ponte sobre o manguezal, dezenas de pessoas apreciavam a formosura da vaidosa lua cheia. Alumiava democraticamente o rio e o mar. Os pescadores do vilarejo nordestino não se cansavam de admirá-la. Os turistas tinham a oportunidade de eternizar a linda cena em suas memórias.

Há tempos que a lua exerce um poder místico sobre a humanidade, para os gregos, a deusa Selene estava associada aos sonhos e processava as informações do inconsciente. As fases da lua influenciaram o plantio nas lavouras, as operações militares e até o corte de cabelo. O fulgor prateado deste satélite natural da Terra certamente também acalentou os corações dos enamorados em todos os cantos do globo terrestre.

Uma senhorinha descarnada pela proximidade do século de andanças observava emudecida o balouçar lunar que rumava ao sertão. Pensava ela como a lua fora sua companheira a testemunhar os fatos históricos em noventa anos de vida? Talvez a reflexão fosse sobre a nossa insignificante existência em cotejo com os bilhões de ano do astro que encanta os homens e as mulheres.

Na manhã seguinte, muito esbelta num maiô floral, saboreava uma caipirinha de limão com maracujá, em diálogo vagaroso, trocava algumas palavras com o filho que a amparava nos passeios. A cadeira estava muito próxima à piscina, portanto, ouvia atentamente o jovem negro que iniciava o trabalho de entretenimento dos hóspedes, sempre com mensagens que alteravam o ritmo do coração.

A qualidade oratória daquele menino era indiscutível, trazia a força do quilombo edificado na Serra da Barriga; o dos Palmares, que se situava a poucos quilômetros da foz do Meirim. Percebia-se a emoção das pessoas no olhar e nas discretas lágrimas que entalhavam a própria vida nos sulcos da face. As histórias de vida da nonagenária e do menino encontravam-se como o amálgama das águas doce e salgada do litoral alagoano.

É preciso uma vida inteira da senhorinha para que o menino herdeiro de Zumbi possa deleitar-se na condição de turista, a mobilidade social do Brasil é uma das piores do mundo, segundo o ranking divulgado pelo Fórum Econômico, em Davos, na Suíça (2020). Para que uma criança tenha a vida melhor do que a dos seus pais, em nosso país, é preciso ultrapassar nove gerações.

O arrefecimento da desigualdade social é o maior dever governamental, os 500 anos de desajuste socioeconômico deixaram um terrível legado para os brasileiros. Construir oportunidades para que um talentoso jovem não encontre tantas barreiras à superação da pobreza é um compromisso democrático. A senhorinha das próximas gerações deve ser testemunha de um Estado que permite o brilho lunar para todos.

 

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