O singular pai do Google

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Estávamos em derredor da churrasqueira. O braseiro alumiava o nosso cantinho. Preparava um singelo assado para as pequenas.

– Luiza, me ajuda com uma ideia pra coluna do jornal.

– A Valentina que tem umas ideias…

– O melhor pai do mundo.

Escutei as considerações sobre uma paternidade mundialmente reconhecida. Tergiversei sobre a existência de outros pais merecedores da ilustre homenagem. Ela replicou:

– Que tal ‘nem o Google encontra um pai como o meu’. Pensei…. parecia uma proposta muito justa, afinal, cada pai possui a sua singularidade. E o buscador Google também não alcança todos os cantos do mundo, portanto, é uma forma interessante de superar a presença de um imaculado genitor integrante de uma tribo isolada na selva amazônica, uma criatura terrena despossuída de quaisquer defeitos na arte de criar a prole.

E se o pai do colinho perfeito estiver nos braços de um indígena nos altiplanos peruanos? Pode ser que o melhor contador de estórias esteja numa savana africana, imitando os rugidos dos leões de forma perfeitamente assustadora, decerto o pai mais corajoso de todos os continentes para os seus filhos.

Como superar a canção de ninar do famoso tenor italiano? E se a voz mais terna for encontrada num camponês dos Montes Urais? Não sei se a ideia de realizar pesquisas paternas no Google é uma boa solução para o festivo domingo de agosto. O mundo virtual é abundante em ofertar molduras divinas para o nosso cotidiano.

A realidade é muito diferente. Lembro que, desde a primeira febre, segurando aquele bichinho que se retorcia incandescente, tenho desafiado as leis supremas da paternidade. O primeiro tombo foi comigo. Não vou descrever a queda precoce do cordão umbilical. Bom. Eu não era estudante de química. Mas o umbigo está lá, bem bonitinho, na barriga da filhota.

No evolver dos anos, os novos pais foram tentando sobrelevar as frustrações geracionais, buscaram corrigir os desacertos dos seus pais; erraram, porém, o que é bastante normal. Alguns até aproveitaram a experiência para exercitar o perdão em relação aos seus ascendentes.

Não é uma lida fácil conquistar o título de melhor pai do planeta. Nos anseios de vida e receios de finitude, entre erros e acertos, a busca no Google indicará o caminho do amor. A ternura do abraço produzirá senão os melhores pais, seguramente, os melhores filhos. Eles seguirão sozinhos a descobrir as verdades pelos sinuosos caminhos deste mundo.

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