Os fios da história

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Olhou-me com aqueles brilhantes olhos da miséria. Ela estava sentadinha na cadeira de bebê. Não estava presa ao cinto de segurança. A Av. Carlos Gomes estava movimentada naquele horário. O pai conduzia bravamente o ‘veículo’. Motoristas impacientes buzinavam. Acomodada na cadeira sobre a pilha de reciclados no carrinho tracionado pelo pai, a menina desapareceu na próxima esquina.

Aquela cena urbana me levou ao ano de 1989. A disputa eleitoral tinha três protagonistas: Collor, Lula e Brizola. Eu tinha apenas 11 anos, idade suficiente para compreender que a educação era um tema importante para os candidatos e fundamental para os eleitores. O Brasil era um país onde 20 milhões de pessoas com idade acima de 14 anos eram analfabetas e menos da metade da população havia permanecido mais de quatro anos na escola.

Os meus pais faziam parte dessa terrível estatística, haviam deixado precocemente a escola. No entanto, sempre souberam que educar e aprender era algo muito importante para o futuro dos filhos. Repetiram milhares de vezes: “a única herança que podemos deixar para vocês é o estudo”. Embora não soubesse o significado da palavra herança, acredito que conseguia entender a doméstica lição.

Desse modo, quando olhava para a professora escrevendo no quadro negro, não enxergava apenas as regras de português ou os cálculos matemáticos; interpretava aquele conteúdo como se fosse a fórmula química da esperança. E foi nesse ambiente que guardei boas recordações e uma singular admiração pelas pessoas que se dedicam ao ensino.

Na caminhada estudantil, fui testemunhando educadores comprometidos com a ofício de transmitir dialeticamente o saber, desde a pré-escola, na E. E. Cidade de Santo Ângelo, quando a professora Isabel ensinava as primeiras letrinhas, colando grãos de feijão na folha branca, até o mestrado, com a qualificada orientação prestada pelo Dr. Francis, professor da UFSM.

Em que pese o esforço brizolista para convencer a população de que a única saída possível seria valorizar os professores e educar as nossas crianças à construção de um grande país, cada vez mais outros temas têm ganhado destaque em detrimento da educação no debate político, o que não é diferente na presente campanha eleitoral.

Assim, aproveitando a justa celebração do Dia dos Professores, podemos imaginar que a menina do carrinho de reciclados, a educação e a política são fios que precisam ser entrelaçados na nossa história, a escola deve ser um espaço igualitário na construção de oportunidades para os nossos alunos.

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