Pandemia é tempo de amar

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A paternidade é um problema de amor. Era primavera na Boca do Monte. Floresceu. Lembro da pequenina ficando roxinha nas mãos da pediatra. Pesava dois saquinhos de feijão. Era um feijãozinho a brotar no fértil terreno da vida. Subiu para a UTI-Neo. O problema é que naquele instante você descobre a tal da finitude. E tem medo…

A primeira febre. Aquela batatinha quente na banheira. O antitérmico e o banho morno. A febre não cede. O pediatra te conforta dizendo que é uma virose, que tudo vai passar. Passou. O tempo vai seguindo, a mãe desconfia que ela não está enxergando direito. O instinto materno é infalível. Uma nova palavra para o teu dicionário. Ambliopia.

Chega então o momento da escolinha. Ela bem faceira carregando a mochila. Você solta a mãozinha e entrega a filhota para a professora. Putz! Tu não controlas nada. O indomável destino é o grande senhor da jornada terrena. A vida moderna segue em questionável velocidade. Tu acordas certo dia e percebe que ela cresceu um palmo.

Chegou a maninha! Bom. Agora será tudo mais fácil. Já sei o que fazer durante a febre. Ops! Ela não gosta de leite? Lá se foram três meses até descobrir o leite adequado e outros tantos meses até a introdução dos alimentos sólidos. Ufa! E ela ainda tem uma personalidade muito diferente da irmã mais velha. E tu sabes quem está crescendo sem parar? O amor.

Lembro quando choramos no cinema assistindo ao filme Divertidamente. E depois choramos em A Vida é uma Festa, as aventuras do pequeno Miguel para preservar a lembrança do falecido Hector. Os desenhos infantis nos ensinando que a imensidão da vida é efêmera. O que vale é o abraço do despretensioso momento.

Foi durante a pandemia que elas cantaram Guri. Sentadinhas no sofá, estufaram o peito para dizer “das roupas velhas do pai”. Eu me emocionava dedilhando o violão. No dia seguinte, a mais velha, que passa cantarolando pela casa, resolveu apresentar-se no ‘Palco Aberto’ da aula de música na escola.

A música escolhida foi Vento Negro. Os coleguinhas e os professores na tela do computador. Eu amadrinhava novamente com o violão. O balbuciar terno de outrora tornou-se uma voz de peculiar personalidade – “não creio em paz sem divisão”. A felicidade em notas musicais. Estamos cantando muito no período de isolamento social.

Um dia elas vão lembrar da história pandêmica. Recordarão dos mortos noticiados na televisão. A lembrança da máscara será inevitável. Um dia elas serão conduzidas pelos labirintos da memória: haverá um resplendor em 2020. Era tempo de amar. Uma pandemia de amor. P.S.: ela pediu para ler. – Gostei, me apontando o dedinho.

 

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