Pão ou ar

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Era inverno de 1999. Perambulava pela orla do Guaíba. O palmilhar desinteressado levou o caminhante à exposição fotográfica de Sebastião Salgado. Os gigantes retratos esculpidos pela sensibilidade colocavam o observador dentro das grandes tragédias vivenciadas pela humanidade naquela época.

Anos depois, em Da minha terra à Terra, li Salgado descrever a cena do rio Kagera, fronteira entre Ruanda e Tanzânia, os cadáveres passando por baixo de uma pequena ponte e caindo sem parar na cachoeira. A fome, a guerra e a miséria não precisam de tradução; é a escrita forte da fotografia, disse o fotógrafo que retratou também os efeitos devastadores das epidemias em países empobrecidos.

Não sabemos o tamanho da tragédia social que a pandemia do covid-19 (coronavírus) causará no Brasil, não temos uma experiência coletiva que tenha nos ensinado a lidar com grandes catástrofes naturais ou epidêmicas em nossa história, o que indica que não possuímos a cultura comportamental daqueles povos que passaram por terremotos, genocídios ou letais epidemias.

No entanto, se a conduta presidencial demonstra mais preocupação com a bolsa de valores em detrimento de vidas humanas, a sociedade deve seguir outro caminho. Precisamos ter singular disciplina individual e coletiva à redução de danos, o exemplo italiano esta aí para nos antecipar que devemos realizar o máximo possível de isolamento social para evitar a incontrolável disseminação do vírus.

O covid-19 talvez esteja nos dando um ultimato enquanto sociedade mundial, ou efetivamos a igualdade sem fronteiras, o que implica saúde e educação universais desde a Etiópia até a Finlândia, ou a própria natureza nos sepultará como iguais. Ainda no epicentro da pandemia, além de produzir um remédio ou vacina, o mundo precisa refletir sobre as necessárias mudanças sociais. O capital não pode tudo.

Não sabemos como o vírus vai reagir ao se deparar com a miséria brasileira, o

desemprego, o home office dos privilegiados, o governo redutor da renda dos

trabalhadores, porém, parece razoável compreendê-lo com um agente regulador da vida social. O vírus está indicando a necessidade de uma dose bastante grande a reforçar a fundamental solidariedade no convívio social.

Em A Peste, o escritor Albert Camus relatou a inquietude provocada pelas condições sociais em Oran, cidade argelina acometida pela peste que produzia infecções pulmonares e vômitos de sangue. A imparcialidade da peste não tornava as pessoas mais justas; os pobres passavam fome. Eles escreviam “pão ou ar” nos muros. A sociedade mundial necessita compreender que a dignidade da pessoa humana é um princípio universal. Pão e ar para todos ou…

 

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