Uma flor pandêmica

0
214

É um cachorro missioneiro. Me acompanha há treze anos. Depois do café preto, a primeira tarefa do dia é o passeio no bairro. O ritual repete-se lá pela meia-noite. Ele, lentamente, caminha pelas calçadas sentindo os odores da capital.

Como é um senhor de certa idade, a vida canina tem apresentado os ordinários problemas de saúde. Dias atrás, ele realizou a extração de alguns dentes, oportunidade em que a veterinária aproveitou para fazer alguns exames. “Tudo certo”, disse a atenciosa médica.

Observar o processo de envelhecimento do “idosinho”, como diz a Luiza, permite algumas reflexões sobre a nossa existência. Ele alterou o temperamento, brinca muito pouco, o vigor físico não é mais o mesmo, precisando de auxílio para superar alguns obstáculos. No entanto, o que tem me causado uma peculiar inquietação é o olhar do cusco.

O fulgor pálido da despedida incerta impregnou-se na retina do bicho. Acho que não é tristeza; talvez uma antecipada forma de nostalgia. O olhar do “idosinho”, como se fosse um mitológico espelho, parece projetar o futuro. É o desafiador tempo a me olhar, tenho refletido. Eis a razão da estranha angústia.

E foi numa das nossas caminhadas matinais que testemunhamos uma cena de singular beleza. Ela está sempre sentada na cadeira da varanda do antigo sobrado adornado por desfloridas roseiras nesta época, exceto quando está muito frio ou chovendo.

Naquela manhã ensolarada de inverno, amparada pela cuidadora, a senhorinha juntava carinhosamente uma pequena flor que jazia no pátio interno. “Obrigada, Amélia! Obrigada!”, muito emocionada, repetiu inúmeras vezes o agradecimento junto ao muro divisório. A moça que lhe auxiliava disse que a vizinha já havia escutado.

Amélia é uma simpática idosa que tem a companhia de um gato siamês e um faceiro vira-lata lobuno. As vizinhas, ao que me consta, moram sozinhas. O terno gesto do arremesso da flor sobre o muro, portanto, é a representação de uma vigilante amizade.

É um amor solidário e responsável em tempos de pandemia. Por isso que não gosto de discursos no sentido de que morrem apenas pessoas do grupo de risco ou que perecem tantos de alhures causa mortis, numa deplorável matemática da morte que obscurece a singularidade de cada minuto de vida.

A senhorinha permaneceu apreciando a beleza da flor pandêmica, uma espécie de esperança primaveril para superarmos o difícil momento. Continuamos o passeio no ritmo do “idosinho”, cheirando, sentindo, aceitando o andar do tempo e reconhecendo o esplendor dos pequenos detalhes das vidas humana e canina.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here