Discurso indireto livre

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Apresenta-se hoje, como prometido na semana passada, o discurso indireto livre. O discurso indireto livre é uma mistura do discurso direto com o discurso indireto. Uma oração ou um período do texto tem a fala direta do personagem pelo autor, ou seja, discurso direto, e uma oração ou um período do texto tem a fala do autor pela personagem, ou seja, discurso indireto. Um texto de discurso indireto livre tem às vezes mais discurso direto e às vezes mais discurso indireto. Esse mais ou menos de um discurso direto ou indireto não importa. Importa no texto a presença de ambos os discursos. Esses dois discursos misturados provam que o texto possui discurso indireto livre.

O discurso indireto livre dispensa as características básicas do discurso direto: verbo de elocução, dois pontos, nova linha e travessão. Verbo de elocução é verbo de dizer. É chamado em latim verbo dicendi. Eis quatro verbos de elocução ou de verbos dicendi: dizer, falar, perguntar e responder. Faz também parte do bloco dos verbos dicendi os verbos sentiendi. Verbos sentiendi exprimem reação psicológica, positiva ou negativa, do personagem, do narrador direto ou indireto. Eis como exemplos de verbos sentiendi – verbos de sentimentos, de emoções – estes sete: gaguejar, balbuciar, gritar, berrar, ralhar, criticar e elogiar. Síntese: dicendi em latim é em português sinônimo de dizer, e sentiendi em latim é em português sinônimo de sentir.

Veja-se este microtexto de Machado de Assis em Dom Casmurro: “Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a filha…”

Onde se mostra o discurso indireto livre nesse microtexto? Mostra-se nos dois últimos períodos. Fala nesses dois últimos períodos o personagem, discurso direto, ou o narrador, o autor, discurso indireto? Não se sabe com precisão. Vale este mínimo explicativo da narração do microtexto: D. Glória tenta demover Pádua da intenção de suicídio por ter mudado, de repente, a vida financeira dele.

Assim, discurso indireto livre foi cunhado, conforme ABC da Língua Culta, por Celso Pedro Luft. É muito usado por literatos – ficcionistas e poetas. Não deve ser usado em redações de concursos. Essas requerem narrador observador. Tampouco deve ser confundido com discurso indireto. Discurso indireto gosta de ser companheiro do discurso direto no texto.

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