Adamovich – do esquecimento à memória

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Em tempos de XX Semana Cultural de Santo Ângelo, quando teremos em sua programação o lançamento e exibição do documentário “Vida e Obra de Valentin Von Adamovich”, realizado pelo artista plástico Marco Baptista, merece destaque a existência, no Museu Municipal José Olavo Machado, de um local para contar a história desse artista austríaco, esquecido durante tanto tempo, mas que teve sua memória construída a partir de informações de pessoas que com ele conviveram e trabalharam. O uso da fotografia e da história oral foram fundamentais para esse trabalho. A partir da pesquisa do escritor Mário Simon, na década de 1980, e da publicação do livreto (organizado por esta historiadora) com da história de vida de Adamovich, o “gênio esquecido” teve sua memória construída, permitindo que diversas pessoas conhecessem a triste história do homem que veio da Áustria e morreu pobre e sem reconhecimento.

Em 29 de abril de 1961, falecia nesta cidade o artista austríaco Valentin Von Adamovich, autor, entre tantas obras espalhadas pela Europa e nossa região, do frontispício da Catedral Angelopolitana, com suas colunas, capitéis, arcos e as esculturas dos padroeiros dos Sete Povos das Missões. Após quase meio século de sua morte, a sua história é contada e sua memória preservada, através da sua divulgação entre a comunidade, em especial, entre o público estudantil.

Ao lembrar desse estrangeiro, de origem nobre, nascido em 6 de julho de 1899, que morreu pobre e levou longos anos para ter seu talento reconhecido, tendo escolhido esta terra para morar, deixar suas obras e viver seus últimos anos, estamos incentivando a pesquisa e a valorização de outras pessoas que também fizeram e fazem parte da constituição da nossa identidade histórica.

Analisando a vida de Valentin, percebemos a variedade de acontecimentos da História Geral e da História do Brasil relacionados a ele: Adamovich era jovem, ainda, quando participou da 1ª Guerra Mundial (ocorrida no período de 1914/1918); quando eclodiu a 2ª Guerra Mundial (1939/1945), na época em que vivíamos o Estado Novo de Getúlio Vargas, o escultor residia em São Luiz Gonzaga e lá foi preso e levado a Porto Alegre, acusado de ser nazista.

Este fato deixou profundas marcas em Valentin e na sua família. Quando, em 1954, o Brasil foi profundamente abalado pela notícia do suicídio de Vargas, o artista já encontrava-se em Santo Ângelo, trabalhando na obra do frontispício da Catedral, deixando impresso ali o seu talento e a sua sensibilidade que podemos conferir ao olhar os anjos com carinha de índios, lá na fachada daquele templo.
Mais uma vez, o escultor, arquiteto, engenheiro e pintor, teria sua história marcada por uma passagem trágica: machucou-se ao trabalhar a pedra grés, sua matéria-prima. Esse ferimento veio causar-lhe um tumor maligno, atrofiando-lhe um dos braços, isso ele retratou na obra triste e inacabada do índio Sepé Tiaraju, hoje exposta no Museu Municipal, onde vemos a desproporção de um dos braços da escultura, simbolizando a dor e o sofrimento do homem por trás do gênio, que amarrava seu instrumento de trabalho na mão para poder esculpir na pedra a sua própria vida.

No ano de 1999, em Santo Ângelo, foi criada a Semana Cultural Valentin Von Adamovich, através de lei municipal, no intuito de rememorar a vida e a obra desse artista, contemplando a data de seu falecimento (29-04-1961). Recuperando e colocando em evidência a história do artista, foram recuperadas a história de outras pessoas relacionadas a ele. É o caso do senhor Arlindo Inácio Hendges, escultor que trabalhou junto com Adamovich nas obras do frontispício da Catedral e era seu genro; do senhor Olindo Donadel, que também trabalhou com Valentin e é o autor do Monumento ao Índio, localizado em frente ao Teatro Municipal Antônio Sepp; da senhora Clarina Lunkes Adamovich, a esposa e companheira do artista aqui no Brasil, e dos senhores Willi Breutigam e Raimundo Kluznik, escultores integrantes da sua equipe de trabalho.

Aqui vemos o artista trabalhando em uma de suas obras preciosas: o Monumento ao Padre Antônio Sepp, erguido nas ruínas da antiga redução de São João Batista (no atual município de Entre-Ijuís). A foto foi tirada pelo fotógrafo já falecido, Tancredo de Moraes. O monumento, inaugurado em 1959, foi um dos últimos trabalhos de Valentin Von Adamovich, antes de seu falecimento.