Aldeia Alvorecer – TEKOÁ KÒENJÙ

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 Pàvè jajerojy
pàvè jajerojy pàvè jajerojy tekoa kò èju
todos juntos dançamos, todos dançamos na Aldeia Alvorada
jarovy a jarovy a
estamos felizes, estamos alegres
(CD Tekoá Kó Enjù –Aldeia Alvorecer, 2004)

A letra de uma das músicas que faz parte do CD do antigo coral (hoje existem outros dois corais e aquele primeiro praticamente se desfez), faz referência ao nome da Aldeia Alvorada – Tekoá Kòenjú, localizada no município de São Miguel das Missões (interior do Rio Grande do Sul/Brasil). Distante 30 quilômetros da sede do município, encravada às margens do rio Inhacapetum, a aldeia também é conhecida como Reserva Indígena do Inhacapetum.
A história da constituição dessa aldeia remonta aos idos de 1994, quando um dos líderes Mbyá, José Acosta, juntamente com sua esposa Paula e mais quatro famílias, vieram se instalar no espaço da antiga Fonte Jesuítica, distante um quilômetro do Sítio Arqueológico da Antiga Redução de São Miguel Arcanjo, considerado Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO.

kyringùe i jagùerojae o
as criancinhas choram juntas e se lamentam
yvy porà ka agùyporà ndogùerekovei
pela boa terra, pelo belo mato que já não têm mais
ore rovy a iagùà ore rovy a iagùà
para nos alegrar, para nos alegrar
(CD Tekoá Kó Enjù –Aldeia Alvorecer, 2004)

Nesta outra letra da música, fala-se de algo que é fundamental para os Mbyá, ou seja, a terra, o mato para que possam ter acesso aos elementos fundamentais para a manutenção do seu modo de ser. Eles são unânimes em expressar a dificuldade em praticar seus ritos, suas crenças já que as cercas lhes impedem de buscar as ervas, a madeira, o mel que precisam para isso.
Em vários momentos que pude presenciar depoimentos de representantes dos Guarani, sejam eles anciãos, crianças, jovens, caciques, eles foram categóricos em reforçar a busca da chamada natureza livre e territorialidade livre, também.

Um dos aspectos que dá maior visibilidade ao grupo residente na Aldeia é a sua arte, manifestada através de seu artesanato (bichinhos feitos em madeira corticeira e cestaria) e, ultimamente com grande repercussão (já foram condecorados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva) através da constituição do coral de crianças e adolescentes que realizam apresentações em vários eventos na região, no estado do Rio Grande do Sul e em outros estados do Brasil.

Os saberes ou conhecimentos da cultura Guarani, representam um movimento de resistência e de manutenção do seu “ modo de ser”, como é o caso da língua e da própria religiosidade, manifestada através de ritos, crenças e cerimônias como a do milho (nominação).

Efetivamente, os mbyás do Inhacapetum, assim como os outros de seu grupo, não costumam discorrer sobre sua arte. Eles a vivenciam no seu dia-a-dia, desde o momento em que levantam e se reúnem em torno do fogo de chão, na varanda da casa ( no inverno) ou no pátio em frente às suas moradias ( no verão). Nesse espaço que é o local onde a criança aprende na observação e na escuta das histórias dos seus antepassados, através da boca do seu pai e da sua mãe, ou mesmo dos anciãos, vai acontecendo a expressão das suas crenças. Isso se materializa no pequeno bichinho esculpido artesanalmente na corticeira, que vai surgindo em meio ao calor do fogo e à presença constante da fumaça (elemento sagrado nessa cultura). Esse mesmo animal esculpido com ferro quente, depois que foi seco ao sol, traz em si a representação e a manutenção de traços culturais que vêm de gerações.

Para o Guarani, a palavra é fundamental, por isso a utilizam de forma cuidadosa, sem falar muito. Seus colares, suas sementes, as cores que utilizam na sua cestaria, carregam toda uma simbologia que não precisa ser explicada em extensos discursos. Ao observarmos as letras de suas músicas, vemos ali muito do que estudiosos dessa cultura como Nimuendaju, Cadogan, Schaden e Meliá trouxeram à luz.

Seus mitos, sua cosmologia está expressa no canto que diz que as criancinhas choram porque não têm mais terra para plantar, ou que ainda buscam a Terra Sem Mal.