JAZ

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Localizada próxima ao cemitério do município de São Miguel das Missões, o antimonumento ou anti-homenagem ao bandeirante Borba Gato, foi inaugurado em 2008, sendo resultado do Edital Arte e Patrimônio, lançado em 2007 “com o objetivo de criar uma linha de financiamento para projetos que estabeleçam diálogos entre as artes visuais contemporâneas e o patrimônio artístico e histórico nacional. Por um lado, trabalhos artísticos e processos estéticos atuais e, por outro, os acervos, as tradições, as culturas e os sítios que estabelecem a memória do País. Essa sugestão de interações múltiplas é um modo de celebrar os 70 anos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan”.

Utilizando-se parte de texto produzido pelo artista plástico paulista João Loureiro e Ana Luiza Dias Batista, podemos obter informações que dão conta de evidenciar a proposta da obra, que mede 2,20 x 2,60 x 2,40 metros:

Intitulado “Jaz”, o trabalho de João Loureiro consiste numa escadaria que conduz a uma sala subterrânea. O visitante não tem acesso ao interior da sala, que é totalmente fechada por um pano de vidro. Do patamar inferior da escada, ele vê, dentro da sala, uma pedra artificial e um fragmento (o “busto”) do que parece ser uma estátua agigantada cujo corpo estaria enterrado. Trata-se de uma representação de um bandeirante, com traços bastante estilizados, em referência aos muitos monumentos construídos, sobretudo no estado de São Paulo, para “glorificar” o bandeirantismo. Uma segunda pedra artificial está no próprio patamar inferior da escada, fora da sala. A estátua e as pedras são quadriculadas. Disposto a indagar os modos de constituição da história e particularmente as formalizações que organizam uma memória cultural a partir dos acontecimentos passados, o trabalho traz para a região da redução de São Miguel Arcanjo um personagem histórico que, nas narrativas locais, ocupa um lugar relativamente secundário.

Esse personagem secundário, porque “derrotado”, é submetido pelo trabalho a um regime oposto ao do monumento tradicional: ele não se encontra em posição “heróica”, mas está imobilizado, esterçado e enterrado; ele não pode ser visto à distância; ele não pode ser circundado; ele não solicita uma identificação simbólica positiva com a população e não omite, mas revela, principalmente através da quadrícula, a condição construída, planejada, artificial e esquadrinhada de seu possível vínculo com determinados fatos históricos. As pedras, por sua vez, aludem ao tipo particular de apelo e reivindicação de verdade que a aparência de ruína empresta a um local. Mas as pedras também são quadriculadas, e sua natureza é a mesma natureza da estátua. A configuração da sala sugere uma escavação arqueológica, escavação na qual, ao invés de indícios autênticos de fatos passados, encontraram-se formalizações de discursos ideológicos sobre esse passado. A existência de uma pedra quadriculada fora dos limites protegidos da sala faz referência a uma situação que ocorre no próprio Parque das Missões: fora da área cercada encontram-se pedras entalhadas bastante semelhantes àquelas que, estando dentro do Parque, são consideradas patrimônio cultural.

Como se pode perceber, na concepção tanto do edital, quanto do artista, a intenção é propor uma reflexão sobre a figura do bandeirante. Ao fazer referência à obra como um “antimonumento” ou uma “anti-homenagem” a essa figura controversa, vista como herói em São Paulo e outros estados brasileiros, porém, conhecida pelas atrocidades cometidas junto aos índios que viviam nas missões jesuíticas localizadas ao Sul do Brasil, em específico, no Rio Grande do Sul, o que se quer é propor um debate sobre os discursos construídos ou, como se escreve a História. Nesse sentido, esse pode se configurar em um espaço interessante para se fazer um trabalho crítico sobre a construção das chamadas figuras dos heróis nacionais, para se pensar como, porque e a partir de quais olhares e intenções se produz a História. Sendo assim, valeria a pena um trabalho de educação patrimonial utilizando-se a obra Jaz. No entanto, fica o alerta para o abandono e descuido que encontrei o local, quando visitei em fins de 2010.