Meu coração é negro, Acorrentado ele chegou aqui. Carnaval e História

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No próximo dia 11 de fevereiro, teremos mais uma edição do Carnaval de Rua de Santo Ângelo, com cinco escolas desfilando na rua Marechal Floriano. O trecho do título faz parte da letra do samba-enredo da caçula das escolas de samba, a Grande Pippi, fundada em 3 de março de 2010.

Com o tema: “Pulsa o coração negro, no sul do meu país”, a agremiação carnavalesca traz para a avenida aspectos da história dos africanos e afro-descendentes para a reflexão. Eis um assunto que muito me encanta, não só por ser historiadora e antropóloga, mas porque é imprescindível que se debata sobre o papel desempenhando por essa etnia em nossa sociedade.

Rememorar essa triste página da nossa história (quando foram arrancados da sua África Mãe e trazidos, acorrentados e da forma mais cruel para o Brasil, dentro dos navios tumbeiros), significa trazer à tona a discussão, também, sobre o fato, muitas vezes negado, de que a escravidão não ocorreu somente no nordeste e no sudeste do Brasil. Tivemos, sim, escravidão no sul do país e, não só na região das charqueadas, como aqui em nossa região missioneira e em tantos outros espaços do Rio Grande do Sul.

Para além de retomar esse período, a Grande Pippi terá a incumbência de mostrar a cultura e a influência desse povo em muitos dos nossos saberes e fazeres. Através da música e da beleza de suas fantasias e carros alegóricos, a expectativa é que possamos ver na noite do dia 11 de fevereiro, passar pela Marechal uma retrospectiva da história dos negros no nosso estado e país. Nesse sentido, destaco a participação dos Lanceiros Negros durante a Revolução Farroupilha, fato pouco comentado pela historiografia e que culminou com a traição, emboscada e execução de muitos desses bravos guerreiros, por parte dos soldados farrapos, para não cumprir com o que havia sido prometido aos negros, ou seja, a sua alforria. Outros fatos e elementos culturais são retomados na letra, como é o caso dos quilombos, da religiosidade e da culinária, conforme podemos evidenciar nos trechos a seguir:

“Meu coração é negro…
Acorrentado ele chegou aqui
Com seus mitos e miçangas
Força, fé e esperança
Hoje faz parte aqui desse país.

Negros escravos,
Vindos por naves negreiras,
Da África às terras brasileiras
Oh meu Pai Bará… Oh meu Pai Bará

Abre os caminhos para a escola desfilar (…)

(…) O negro é filho da terra
Da mãe África matriz…
Sobre espumas flutuantes,
depois lanceiros de guerra (…)

Coração negro escravo
Forjado no comércio
Portugal, África e Brasileiras
Desembarcou em Pernambuco
São Paulo e Rio de Janeiro
Veio mostrar sua raça aqui no sul
Comendo feijoada e mocotó (…)

Nas charqueadas suou sangue
Negro de bombacha
Tropeiro pelo Brasileiras
Clamando sua liberdade (…)