As relações de gênero

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 Alguns meses antecedem a inquietação a respeito das relações de gênero – conceito que se refere às relações entre mulheres e homens, mulheres e mulheres, homens e homens – especialmente depois de alguns fatos apavorantes… Você se lembra que no dia 16 de dezembro de 2012, uma jovem estudante paramédica de 23 anos foi violentada brutalmente num ônibus em Délhi, segunda maior cidade da Índia, onde o turismo feminino reduziu em 30% após este fato? Você se lembra que no dia 14 de fevereiro de 2013, uma jovem de 29 anos foi assassinada pelo namorado, um atleta bicampeão paraolímpico, na África do Sul? Você se lembra que no dia 30 de março de 2013, uma jovem estudante de 21 anos dos Estados Unidos foi violentada em uma Van no Rio de Janeiro, quando o Brasil foi comparado pelos jornais internacionais, em plena euforia de copa do mundo e jogos olímpicos, com a Índia? Você se lembra que recentemente uma mulher de 30 anos foi agredida e violentada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro? Você se lembra da dentista…? Lembra-se das três mulheres mantidas em cativeiro…? Você lembra..!? Vamos avaliar alguns dados de pesquisa. Você sabia que dois milhões de mulheres por ano são mortas na Índia por violência sexual, agressões domésticas, disputas familiares e maus-tratos aos idosos, que afetam muito mais mulheres do que homens? Você sabia que na África do Sul, capital mundial do estupro, uma mulher é violentada a cada 27 segundos? Você sabia que a cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil? Vamos avaliar como estão as relações de gênero no meio político e corporativo… Você sabia que dos 195 países independentes do mundo, apenas 17 são governados por mulheres? Você sabia que das 553 vagas na Câmara dos Deputados do Brasil, apenas 45 vagas (8%) são ocupadas por mulheres? Você sabia que nos Estados Unidos apenas 4% dos diretores executivos das quinhentas empresas de maior faturamento são mulheres? Na América Latina, apenas 1,8% das maiores empresas tem mulher na direção executiva. Mas não só existe desigualdade na ocupação de cargos, como também na remuneração. Para exemplificar, as mulheres americanas recebem 77 centavos para cada dólar recebido pelos homens na mesma função. Na América Latina, as mulheres recebem em media 17% menos que os homens, e no Brasil, 13%. E como se dão estas relações de gênero na agricultura? Alguns estudos apontam (como a dissertação de Mestrado intitulado: “Só podia ser Mulher”, de Marta Lorenz-Unijuí) que foi com o desenvolvimento da agricultura, que as relações de poder entre homens e mulheres se estabeleceram. No início da Idade do Bronze, 3.300 anos antes de Cristo, se implantava uma agricultura intensiva na região do Egito, Iraque, Irã, Israel, Jordânia, entre outros. Nesta época, quanto mais filhos um homem tivesse, mais pessoas ele teria para ajudar no trabalho, e desta forma, a mulher passou a ser propriedade do homem, dependente do seu caráter biológico, enquanto o homem dominava a natureza. Na atualidade, as desigualdades em relação ao gênero na agricultura são visualizadas principalmente no acesso à terra, tecnologias e crédito. Para ilustrar este fato, alguns estudos (UFRGS/FAO) indicam que no Brasil, somente 11% dos proprietários de terra que possuem mais de 50 hectares são mulheres (México, 22%, Paraguai, 27%, Peru, 12,7%) sendo a herança o principal meio de acesso à terra pelas mulheres. Desta forma, a idade média das proprietárias de terra tende a ser maior do que a dos homens, já que as mulheres se tornam proprietárias somente depois de viúvas. Os motivos pelos quais as mulheres não possuem terras podem estar relacionados, sobretudo com a invisibilidade, falta de reconhecimento e de oportunidade de trabalho da mulher na agricultura bem como com a discriminação direta das mulheres no momento da compra, as quais podem pagar preços mais altos que os homens, para as mesmas dimensões e qualidade da terra. Na agricultura, os homens têm maiores oportunidades de empregos permanentes do que as mulheres, as quais tendem a permanecer em tarefas sazonais e temporárias. Com menor acesso à terra, as mulheres consequentemente têm menor acesso ao crédito e às tecnologias. A desigualdade de gênero diminui a capacidade de as mulheres contribuírem para o desenvolvimento de um país. Quando as mulheres exercem maior controle sobre os recursos, ocorrem maiores investimentos no capital humano das crianças – mais educação, mais qualidade na alimentação, mais saúde, e como resultado, maior crescimento econômico. Para concluir, se questiona sobre que tipo de sociedade se quer? Uma sociedade governada por homens, ricos e brancos? Ou uma sociedade governada por homens e mulheres, brancos, pretos e mulatos, ricos e pobres…? Qual delas parece ser mais inclusiva? Se a desigualdade de gênero, além de moralmente condenável é uma estupidez econômica (Otaviano Canuto, Banco Mundial), é também a violência contra a mulher, a mais covarde atitude que um homem pode pensar em cometer.